Nos últimos anos, as obras de Maria Firmina dos Reis têm ganhado cada vez mais destaque nos estudos literários e acadêmicos. Firmina nasceu na cidade de São Luís e é considerada a primeira romancista brasileira. Também exerceu carreira na docência, sendo a primeira mulher a passar em um concurso público no Maranhão, transferindo-se em 1847 para a cidade de Guimarães para o cargo de professora primária, quando escreveu toda a sua obra literária: o romance Úrsula, o livro de poemas Cantos à beira-mar, os cantos Gupeva e A escrava. Em 1859, a autora maranhense fez sua primeira publicação, Úrsula, uma de suas obras mais conhecidas, um romance abolicionista que desafiou as estruturas sociais de sua época ao dar voz a personagens escravizados.
No entanto, por mais de um século, sua produção literária permaneceu desconhecida, sendo redescoberta apenas no século XX pelos pesquisadores Horácio de Almeida e Nascimento de Moraes Filho. Suas pesquisas sobre Firmina tiveram grandes contribuições e, hoje, estudiosos de diferentes áreas investigam sua escrita, seu impacto na literatura brasileira e sua relevância para os debates sobre gênero, raça e identidade nacional. Este movimento de recuperação tem impulsionado novas interpretações de sua obra, além de permitir que os especialistas busquem olhar Firmina para além de suas obras e sob novos ângulos.
Múltiplas formas de abordagem
Nascida e criada em Imperatriz, a professora doutora em Linguística Ana Carla Rio foi a primeira a estudar a análise do discurso nas obras de Maria Firmina dos Reis. Seu primeiro contato foi quando precisou estudar a obra “Úrsula” para o vestibular especial da UFMA para o curso de Comunicação Social/Jornalismo, o que possivelmente levou a um questionamento “me despertou saber o motivo pelo qual, em nenhum momento, eles tinham mencionado, em um curso de letras, no Maranhão, uma autora de extrema importância no século XIX, sobretudo no romantismo”.
A pesquisadora destaca que, com os avanços no campo da pesquisa sobre Maria Firmina, as abordagens podem ser feitas de várias formas, como na área do Jornalismo e Letras, onde Firmina é bem presente; na Geografia, quando pegam a literatura ficcional e fazem uma análise do espaço dentro da obra literária; e também na Sociologia, em que a professora utiliza uma base teórica fornecida por Foucault para entrelaçar com o que Maria Firmina e suas obras representam. A partir dessa base, fazer uma análise do discurso, precisamente pensando na função enunciativa que foi cumprida dentro da literatura ficcional.

Da escola mista aos espaços escolares da atualidade
Maria Natividade Silva Rodrigues, pesquisadora e mestra em Ciências Sociais, é pioneira nas análises a respeito de Maria Firmina e trouxe visibilidade para a abolicionista na região tocantina. Por meio do projeto “Café Sociológico” em 2017 na Escola Estadual Henrique de La Roque, em João Lisboa, a professora trabalhou com autores regionais, incluindo Firmina, mostrando assim que os estudos sobre a romancista podem enriquecer os repertórios culturais e contribuir para o meio acadêmico. Para a educadora, a escritora maranhense possui grande relevância na literatura brasileira.
As iniciativas da professora não apenas refletem seus esforços em visibilizar a autora, mas também evidenciam o quão pouco ainda se fala sobre Firmina e a necessidade de inserção no meio acadêmico. Durante a entrevista, a professora destacou quais são as abordagens interdisciplinares aplicadas nas pesquisas das obras de Maria Firmina.
Para Natividade, falar de Firmina são letras que percorrem várias cidades, tanto São Luís, onde a escritora nasceu, quanto o município de Guimarães, que passou a maior parte de sua vida, e hoje percorre todo o mundo. A escrita da revolucionária já não é somente uma cidadã maranhense, mas é também de uma cidadã do mundo.

Obras de Firmina no campo da pesquisa
“Hoje eu tenho uma visão muito além dos grupos”, diz Erica de Lima de Matos, graduada em pedagogia e psicopedagogia na rede municipal de Imperatriz, sobre ações dos grupos de pesquisa. Para Erica, a importância está em os pesquisadores deixarem seus grupos, para falarem sobre Firmina, seja para jornalistas, professores ou acadêmicos. Comenta ainda, que difundiu Firmina no chão da sua sala de aula para trabalhar com as crianças e contribuir para tornar a jornalista mais conhecida, utilizando seu conhecimento adquirido no grupo de estudo e o espaço da sala de aula para propagar Firmina.
A psicopedagoga considera que, atualmente, é mais fácil encontrar as obras da autora quando comparado a alguns anos atrás, pois é possível encontrar esses livros em sites e aplicativos de compra. Seu contato com Firmina foi por meio de sua professora, Marilea na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e ressalta que hoje é mais provável ter obras disponíveis nas bibliotecas.

Maria Firmina sob novos olhares
Professora na rede estadual de Imperatriz, Wanessa Kewry dos Santos Nascimento observa que ainda há algumas lacunas na vida da poetisa Firmina dos Reis, pois Kewry considera que são necessários novos olhares e perspectivas sobre a autora. A professora destaca a escassez de materiais para estudo, evidenciando assim essas lacunas. No entanto, Wanessa hoje se vê em uma posição confortável quanto à disponibilidade de registros históricos, o que a permitiu desenvolver sua pesquisa sem grandes dificuldades, mas destacando a necessidade de olhar para a produção de novas investigações para ver Firmina por outros ângulos.
Wanessa destaca a obra “Maria Firmina dos Reis e o cotidiano da escravidão no Brasil”, do escritor vimaranense Agenor Gomes, pois ele faz um estudo vasto sobre Firmina dos Reis, trazendo documentações históricas, o que lhe permitiu observar e ressaltar a falta de representações fotográficas ou pinturas de Firmina, produzidas ainda em sua época. “O que a gente tem hoje são representações, ilustrações de Firmina, mas desconhecemos a verdadeira face de Firmina”, relata a professora. Essa ausência de imagens reais fez com que surgissem representações falsas da verdadeira face dela. O aprofundamento desses estudos viabiliza novos olhares e descobertas sobre Maria Firmina. “Pensar a Firmina dessas variadas formas é um desafio, né, lidar com essa carência de matérias para ser ponte aí de pesquisa… penso como um desafio”.

Ao realizar as entrevistas que deram margem para essa reportagem, percebemos o quanto é interessante essas diferentes visões a respeito de um dos maiores nomes da literatura brasileira, que é Maria Firmina dos Reis. As pesquisadoras trazem, a partir de suas realidades e profissões, as experiências que tiveram desde o primeiro contato com as obras da escritora. Mas, mesmo diante desses avanços em tornar Firmina conhecida, são necessárias mais ações do poder público, inserindo as obras da jornalista maranhense em bibliotecas públicas, fomentando assim, a valorização da literatura afro-brasileira, além da ampliação do repertório literário.
Se esta reportagem gerou curiosidades sobre a escrita da autora romancista Maria Firmina dos Reis, você pode ler suas obras “Úrsula”, “Gupeva” e “A escrava”, “Cantos à beira mar”. Suas obras focam na denúncia da escravidão e na humanização de pessoas escravizadas, mostrando-os como sujeitos com sentimentos e desejos, além de expor a violência e a opressão do patriarcado e da sociedade do século XIX, se tornando um forte exemplo de literatura abolicionista e feminista.
Produto desenvolvido por acadêmicos do curso de jornalismo da UFMA/Imperatriz na disciplina de Leitura e produção textual II, coordenado pela professora Camila Viana, e publicado no site Região Tocantina, editado pelo professor Marcos Fábio e diagramado por Eduardo Jorge.