quarta-feira, 9 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #051 – AMOR E JUSTIÇA – PARTE II (Iane Carolina Silva)

Publicado em 26 de outubro de 2025, às 23:45

Pouco tempo depois do sumiço de Maria, os pais deram por falta da moça em casa. Saíram em busca da filha pelas ruas de Balsas. Rua por rua, beco por beco. Depois de algumas horas, alguém deu a notícia de que ela tinha partido em um ônibus com direção a Imperatriz. Seu Adalberto podia ser um homem antiquado, mas não era de ser passado para trás e logo percebeu o que tinha acontecido à filha: fugira para encontrar o homem que amava.

João e Maria viviam felizes após se casarem escondidos da família que não consentia o relacionamento dos dois. Na casa onde viviam, contavam-se os móveis e apetrechos. Dois pratos, dois copos, uma cama que João comprara por aqueles dias. A água era servida no pote de barro e não havia mesa para jantar.

Apesar de patente carência material, a vida de João e Maria não carecia mesmo de muito para que as noites de amor se fizessem abundantes naquela casa com paredes de meia com a vizinhança. Porém a calmaria e paz não durariam muito.

Seu Adalberto, homem de posses, logo colocou gente atrás do paradeiro de Maria. Não foi muito tempo, descobriu que a filha tinha se casado com “o tal João” em um cartório de Imperatriz. Não tardou e encontraram também o endereço em que os dois estavam morando.  Pegou a mulher pelo braço e seguiram até a filha naquela cidade.

Chegando a Imperatriz, seu Adalberto foi direto à casa de Maria. Bateu palmas e esperou a moça atender à porta. Maria, quando viu o pai, ficou tonta e andou caindo para trás de tão surpresa que ficou.

– Paiii?

– Maria, eu não acredito, você se casou com aquele tipo. E escondida de mim! Você quer me matar de desgosto? Eu te criei uma vida toda pra fazer isso comigo? – questionou seu Adalberto.

– Pai, nós nos amamos; eu nunca quis fazer mal ao senhor, mas eu não podia deixar João, ele é o homem que eu amo e com quem eu quero ser feliz! – respondeu a moça.

 Logo a mãe de Maria se meteu na conversa:

– Minha filha, nós te criamos com tanto amor e dedicação, te colocamos pra estudar, fizemos de você uma moça prendada e você me vem aqui casar com este rapaz que a gente nem conhece, que nem consegue te dar uma moradia decente?

– Mas mãe, eu amo o João, o que nós temos não importa; eu também vou trabalhar pra gente um dia ter nossas coisas.

Enquanto isso, João, que tinha saído, fora chegando em casa e entrou na conversa.

– Boa tarde! – Interferiu João.

– Boa tarde, não. O senhor sequestra minha filha, casa escondido com ela, tira ela da nossa família e quer me dar boa tarde?

– Olhe aqui seu Adalberto, eu e sua filha nos amamos. Eu fui até sua casa pedir a mão dela em casamento e o senhor me escurraçou de lá; procurou me humilhar! Com ou sem a sua benção eu ia casar com a sua filha, porque era isso que eu quero, é isso que ela quer…

– Quer coisa nenhuma! Minha filha não tem querer! Fui eu que criei Maria pela vida inteira a pão de ló, como uma princesa, pra ter um futuro bom, com estudo, com educação, com um marido que dê a ela uma casa de gente, fartura e uma vida boa. E o senhor não tem nada disso! Eu levo hoje minha filha embora!

– Opa lá! O senhor não leva ninguém a lugar nenhum! Maria se casou comigo por livre e espontânea vontade e vai continuar casada comigo. O senhor não vai levar ela pra lugar nenhum nem hoje nem nunca! Agora ela é minha mulher e vai continuar assim.

– Pois eu quero ver se essa arrogância sua vai continuar. Já vi aqui que o senhor não tem onde cair morto! Quero ver quando vocês não tiverem um pão pra comer pra onde ela vai correr! Espie só! – esbravejou o velho sogro, já chamando a mulher pra ir embora.

– Simbora daqui, mulher, que, antes de eu morrer de desgosto, essa daí volta lá pra casa. Ou eu não me chamo Adalberto Pereira – esbravejou seu Adalberto, levando dona Firmina em direção à porta.

Dias se passaram depois daquela inesperada visita. João, que fazia escalas no Exército e precisava se ausentar alguns dias para ficar nas acomodações do Batalhão, deixou Maria em casa por alguns dias sozinha.

Já havia se passado mais de mês desde que se casaram e o amor dos dois era cada dia mais robusto; parecia mesmo inabalável. Mas até o mais forte dos soldados tem pontos fracos e um dia, sozinha em casa, vendo os dias se passarem até que João retornasse do serviço, as palmas ecoavam novamente na porta. Desta vez não tinham um som de raiva, como do dia em que seu pai veio confrontá-la. Eram mais doces e calmas. Eram as palmas de sua mãe, que dessa vez viera sozinha para conversar com a filha amada.

Dona Firmina era uma pessoa obediente ao esposo e aos costumes daquela sociedade, mas amava a filha mais do que a si própria – é o que se poderia dizer. Como era comum, não ousava manifestar seus sentimentos e afetos, mas sempre fez tudo para que sua filha tivesse um destino melhor que o seu.

No entanto, não compreendia porque, dentre tantos rapazes, Maria tinha escolhido logo João para se casar: um rapaz tão diferente do seu tipo, de sua classe social, de seus modos. Dona Firmina pode ser julgada por não querer que sua filha se entregue ao amor de sua vida, mas o amor que ela deu à filha foi exatamente para que pudesse ter uma vida melhor do que a dela, sobre todos os aspectos.

– Minha filha, eu fiz tudo o que eu podia para você ter uma vida melhor do que a minha. Seu pai não é má pessoa, só tem aquele jeito dele. Mas só quer o seu bem, quer o melhor pra você. A gente fez tudo pra que você tivesse casa, comida, afeto, educação. Eu fiz o que eu pude pra que você tivesse um futuro melhor do que o que eu tive.

– Mas mãe, eu amo João e sou feliz com a vida que a gente leva.

– Minha filha, olhe a seu redor. Esse rapaz não conseguiu nem comprar os móveis pra sua casa. Você sempre foi criada a pão de ló, não é verdade? Toda sua vida teve quem fizesse tudo pra você. Nós colocamos você pra estudar pro caso de acontecer alguma coisa, você ter a garantia de ter o que é seu. E olhe aqui; você nem estudando tá mais.

– Eu sei mãe, e eu lhe agradeço por tudo. Mas a gente vai dar um jeito. Eu vou ver se eu volto a estudar e a gente vai conseguir dar um jeito na vida. O João trabalha no Exército, ganha pouco, mas vai dar certo.

– E pense no seu pai. Eu e ele não temos mais muitos anos de vida. Seu pai já é um homem velho e ama você. Eu também te amo. Você quer mesmo passar o resto da vida sem ver seu pai? O homem que te criou e que te ama mais do que tudo nesta vida? E seus irmãos, que são mais novos que você; já já ficam homens. Tem toda a nossa família. Você largou todo mundo que te amava, tudo o que você conhecia por uma pessoa que conheceu há uns meses.

Depois desse falatório todo, Maria ficou pensativa. Mas continuou dizendo à mãe que João era o homem de sua vida.

– Olhe, se você pensar melhor e quiser voltar pra casa, a gente te recebe de braços abertos. Você é nossa filha e sempre será. Seu pai está sofrendo muito e é capaz de morrer de desgosto se você não voltar. Eu vou deixar um dinheiro com você, pra você usar pro que precisar. E se quiser voltar pra casa, volte. Porque todos nós te amamos e queremos você de volta.

Assim, dona Firmina se despediu da filha e voltou para Balsas. Maria, mesmo amando João mais do que tudo, ficou pensativa e ressentida por ter abandonado a família que tanto amava.

A PRIMEIRA BRIGA

Depois da visita da mãe, Maria ficou esperando João chegar do Batalhão. Muito mais rígido que todo trabalho, no Exército todos tinham horário marcado para entrar e para sair. Mas naquele dia ele não apareceu na hora combinada.

Acordada até tarde da noite, Maria ficou desperta até que ouviu um barulho na porta e foi ver se era o marido. Na madrugada de Imperatriz, um cheiro tomou conta daquela sala pequena. Era cheiro de álcool. João tinha saído com os amigos do Exército depois do trabalho e aproveitado para se divertir em um bar, até que perdeu as horas de voltar para casa.

A esposa se enfureceu com aquela atitude. Mal tinham completado um mês de relacionamento e o homem que lhe jurara amor eterno já estava se esbaldando com os amigos até de madrugada, fazendo-a esperar sentada por ele.

– Isso são horas de chegar em casa, João?

– Eu saí com uns colegas depois que a gente deixou o Batalhão!

– E foram pra onde?

– Ah, a gente só tomou umas no bar da esquina!

– E eu plantada aqui esperando você chegar em casa, depois de dias que você não aparece! Você não tem vergonha de fazer isso comigo?

– Pra que isso, Maria? Eu só estava bebendo com uns amigos, vem cá… – replicou João, tentando fazer a esposa deitar-se com ele.

– Você tá muito enganado se acha que eu vou me deitar com você desse jeito! Fique aí na sala, que eu vou pro quarto! Não quero olhar pra sua cara! – interpelou Maria, empurrando o marido e trancando-se no quarto para que ele não entrasse.

Quando amanheceu, Maria ainda estava enojada da atitude de João, mas o homem tentava acalmar a esposa com afagos e cafunés.

– Olhe Maria, me desculpe por ontem, eu não devia ter saído com o pessoal. Mas venha cá, deixe disso. Prometo que não se repete esse negócio. – E convenceu a esposa a se amansar um pouco mais, com os dois se enlaçando à luz do dia.

Maria ia ter conversas com as vizinhas na rua. Sentava-se na calçada, ia ao mercado e começou algumas amizades no bairro em que morava. Observava quando João ia pela rua e atraía os olhares de moças que passavam por ele. Sempre imaginava se um dia ele a trocaria por uma moça mais jovem ou mais atraente.

A conversa que teve com a sua mãe a deixou dias pensativa. A cabeça, que antes era dominada pelo amor de João, por meio das cartas que trocavam quando moravam distante, agora cedeu lugar à dúvida de ter realmente feito a escolha certa: entregar-se à paixão deixando para trás tudo o que conhecera por toda sua existência.

À medida que passava o tempo, sua crise existencial avultava-se, ainda mais quando João precisava deixá-la sozinha para passar dias de plantão no Exército.

Certo dia, esperava novamente João chegar do serviço e a mesma cena se repetiu. O relógio ecoava na cabeça de Maria o tique-taque, e a hora parecia uma eternidade. Pela janela, via-se o sol se pondo, dando lugar à escuridão da noite e à luz da lua e das estrelas solitárias no firmamento. A ansiedade pela chegada de João, que se atrasara novamente depois de mais um plantão, aumentava o som dos grilos e sapos que cantavam ao redor da casa. Aquilo no juízo da esposa Maria tinha algo de calvário.

A espera agigantava tudo o que havia de menor, especialmente as angústias e as dúvidas que pairavam sobre a cabeça de Maria. Naquele dia se pôs em xeque o amor daquele homem por quem ela largara tudo e a todos. Aquele João que a faria esperar, sem saber onde ele estava; quando em casa, acolá, estavam à sua espera seu pai, sua mãe, seus irmãos; toda uma família na cidade de Balsas, pedindo a sua volta.

Só haviam se passado 45 dias do seu casamento, mas a conversa com a mãe de Maria colocou questionamento profundo em sua mente: realmente teria valido a pena largar toda uma vida por um amor que parecia de verão?

Antes que João chegasse, como que absorta, Maria arrumou o pouco que tinha, catou o dinheiro que a mãe lhe havia arrumado e voltou para a cidade de onde viera. Ela não tinha completa certeza de sua vida, mas sabia que não queria esperar todas as vezes João chegar de madrugada com os amigos de uma festa, cheirando a cachaça. Quantas vezes isso iria se repetir (?) e ela ali, sentada, esperando por ele? – pensou.

Ela poderia aguentar a casa sem móveis, uma vida sem luxos, até ficar sem frequentar a escola. Mas a ideia de ficar sentada todas as vezes a esperar por alguém que lhe prometera chegar em um horário e que não chegava, isso ela não aguentaria. Aquilo era mentir. Dizer que não faria mais aquilo e fazer não tem de nada diferente a mentira. E depois, que mentiras outras ele contaria? Teria outras Marias?

Assim Maria e João se separaram.

Ao não encontrar a mulher em casa, o marido abandonado sai em busca da esposa pela cidade. Após dois dias, ele entendeu tudo e resolve ir a Balsas conversar com ela. Maria não queria mais ver o rapaz e diz para seus pais darem o recado. Houve incontáveis tentativas; Maria continuou sem ver o marido, que, aos poucos, foi deixando de procurá-la.

Dois meses se passaram e Maria começa a se sentir mal. Dona Firmina logo percebeu: a filha estava grávida. A futura avó chamou o marido para falar da situação. Depois de conversarem, chamaram Maria para lhe falar:

– Olhe, minha filha, você está grávida. – disse dona Firmina. E você sabe que nessa sociedade uma mulher grávida precisa de um pai para a criança. Por isso, a gente conversou e precisa que você se case.

Maria ficou perplexa sem entender a situação. Sua cabeça era um turbilhão de coisas com a separação recente de João, uma gravidez repentina, a volta para a casa dos pais… Não sabia o que pensar.

– Nós temos a pessoa ideal para casar com você: é o Jeferson Barbosa. Um bom rapaz, dono de muitas terras e estudado. Você sabe; ele sempre gostou de você e confessou que quer lhe assumir como sua esposa.

Maria atinou naquela conversa e, perplexa, não conseguiu falar. Saiu aos prantos para seu quarto, onde ficou por três dias.

No quarto dia, Maria saiu do quarto e voltou a frequentar os cômodos da casa. Sua mãe tratou logo de convidar o varão Jeferson para almoçar com eles. Em uma recepção digna da nobreza, a casa foi arrumada como nunca antes, todas as panelas ariadas, a melhor louça da casa posta à mesa, até mandaram matar um porco para servir ao convidado.

Maria não estava muito contente com a visita, mas Jeferson foi recebido com todas as honras. Não se falou em casamento à mesa, apenas dos assuntos triviais do dia a dia. Jeferson voltou outro e outros dias para sentar com a família de Maria e com a própria Maria. Assim os dias se foram passando e a moça entendera por bem ceder ao pedido da família.

Depois que Maria aceitou casar com o rapaz, logo aprontaram o casamento. A noiva usou um vestido folgado para entrar na igreja. Já estava com mais de quatro meses de gravidez e a barriga já sobressaía. Na Igreja, os pais de Maria, os irmãos mais novos, primos, tios e todos que pudessem testemunhar o matrimônio na pequena cidade do Maranhão.

Também havia os familiares do noivo e a sociedade balsense fora convidada para aquele casamento luxuoso que marcara os eventos da cidade. Maria não estava tão radiante quanto no dia em que se casara no cartório com João. Em tese, a separação demoraria muito tempo, mas nada que muito dinheiro, poder e influência não resolvessem para anular a união do casal apaixonado que só ficou 45 dias juntos.

Ao contrário da primeira vez, Maria estava usando um vestido luxuoso, bem rodado, com uma cauda longa e um véu que tocava o chão e media tanto quanto a cauda de seu vestido. Os bordados e rendas foram encomendados exclusivamente para adornar as vestes de seu casamento. Nas mãos, ela levava um buquê de rosas vermelhas, um toque de flores brancas silvestres, fazendo referência às suas raízes do Sertão.

João não veio para impedir o casamento e Maria firmou a união com Jefferson para a alegria de sua família.Jeferson era um rapaz alto, rico, branco e de bons modos. Tinha negócios em Balsas e em São Luís, onde ia e vinha de avião particular. Tinha vários negócios: possuía terras, mas tinha escritórios de contabilidade e também era advogado. Não se sabe ao certo de onde vinha maior parte de sua renda. Sempre foi de família rica, mas também sabia fazer dinheiro. Era o marido que os pais de Maria sempre sonharam.

Logo após o casamento, Maria e Jeferson se mudaram para a capital, São Luís. Lá nasceu o filho de Maria, Carlos. Ela sempre vinha ver a família em Balsas e trazer Carlos para ver os avós e brincar, ver animais em terras balsenses. Mas sua vida tinha mudado drasticamente desde que se mudara para a capital.

A riqueza de Jeferson deixou para trás os dias em que Maria não tinha um fogão para cozinhar. Mas o brilho nos olhos da moça foi se apagando como a chama que se apaga quando a lenha do fogão se esvai. A história de Maria e de seu filho só estava começando.

SOBRE A AUTORA – Iane Carolina Silva é piauiense, mas vive em Imperatriz há 11 anos. É formada em Jornalismo pela UFPI e pós-graduada em Comunicação Institucional pela Metodista-SP. Com 41 anos, escreve poesias desde os 14. É produtora cultural, elaboradora de projetos, produtora de audiovisual e assessora de imprensa do Ministério Público do Maranhão. Apaixonada por teatro e cinema, escreve contos inspirados em histórias reais, motivada pelas pessoas que conhece na sua vivência com o jornalismo. Recebeu o Prêmio Maranhão de Literatura (2024), realizado pela Secretaria de Cultura do Maranhão. Também é colunista do Portal Acesse Piauí e agente exclusiva do cantor e compositor Erasmo Dibell.

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