terça-feira, 15 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #050 – AMOR E JUSTIÇA – PARTE I (Iane Carolina Silva)

Publicado em 19 de outubro de 2025, às 10:28

JOÃO

Era verão de 1971, quando os jovens do 50º Batalhão de Infantaria e Selva estavam se formando no Município de Imperatriz. Havia festa entre eles. Após vários meses confinados no pavilhão do Exército, era hora de aproveitar a vida na cidade.

O mês era julho época de veraneio e do deleitar nas praias do Rio Tocantins. Entre os recém-formados estava João, um moreno não muito alto, de um sorriso deveras encantador. João era famoso entre as meninas não só pelas covinhas que formavam em suas bochechas quando sorria, mas pelo jeito educado com que cortejava as donzelas da época, também, pelo físico atlético.

Ao saírem do Batalhão os jovens logo souberam de uma festa que aconteceria às margens do Rio. Ninguém perderia este momento de lazer para comemorar a formatura e festejar o tempo livre com os amigos e as moças da cidade.

João: – A gente se encontra na festa hoje, na Praia do Cacau?

Tadeu: – Sim! Vai ser muito bom comemorar.

Seu amigo, Tadeu, era companheiro de todas as horas e sempre compartilhavam os momentos bons e momentos difíceis juntos.

À tardinha, João e Tadeu, junto a outros formandos, se encontraram na festa da Praia do Cacau. Lá se via música, diversão e muita juventude, como é comum nos períodos de veraneio na beira-rio.

João, que sempre tinha muitas pretendentes aonde chegava, logo tirou uma beldade para dançar. Carolina tinha cabelos negros, encaracolados. Também era alvo de disputa na festa; mas os dois logos se entrelaçaram e resolveram namorar. Tadeu também encontrou um par. Os casais seguiram se divertindo na festa e levaram os romances adiante, como era comum naquela época.

MARIA

Maria era uma moça culta, estudiosa, cidadã do Município de Balsas que foi para Imperatriz estudar. Ela e a amiga Dalva cursavam o Ensino Médio e pretendiam prestar vestibular. Maria sonhava ser escritora e queria fazer Letras-Português.

As duas frequentavam o Colégio Evangélico Imperador, uma das melhores escolas do Nordeste na época. As amigas vinham de famílias de classe média e eram consideradas de boa índole para os costumes da época. Moças educadas, inteligentes, que se casariam com bons maridos.

Maria tinha estatura mediana, era branca, tinha cabelos castanho-claros e uma beleza incomum, estonteante. ´Aquela menina arrebenta corações´ – diziam muitos. Mas, muito além de sua beleza física, Maria era uma pessoa fina, gentil em meiga; gostava de viver e queria ser alguém na vida, e muito acreditava no amor.

Sua amiga, Dalva, também branca, com estatura semelhante à de Maria, também tinha olhos castanho-claros. As duas eram inseparáveis e transitavam entre Imperatriz e Balsas; durante o período escolar ficavam em Imperatriz, mas nas férias ou feriados sempre voltavam para casa para rever e familiares e amigos.

RE-ENCONTRO

Ao final do primeiro período do ano, Maria e Dalva tomaram um ônibus na Rodoviária de Imperatriz para passarem as férias em sua cidade natal. Ali, avistaram uma moça no ônibus. Dalva, no ímpeto, comentou sobre sua beleza.

Dalva: –  Olha, Maria, como aquela moça é bonita!

Maria: – Sim. Muito mesmo! Eu conheço o namorado dela. Você não vai acreditar: ele é horrível!

Não demorou muito o namorado da tal moça chegou. Era Carolina. E o namorado dela era João, o recém-formado do Exército que estava na festa da praia do Cacau. A questão é que Dalva e Maria também foram à festa na beira-rio antes de arrumarem suas coisas para embarcarem de volta para casa. Lá, Maria não deixou de perceber o casal que chamou a atenção de outros jovens.

Carolina então embarcou sem João. As três seguiram viagem. O ônibus seguiu o percurso pelo interior do Sul do Maranhão até o Município de Balsas, onde Dalva e Maria reencontrariam suas famílias e amigos. Por lá ficaram o mês inteiro de férias. Ao final do mês, voltaram para Imperatriz onde deveriam retomar os estudos para o vestibular e seguir suas carreiras na vida adulta.

De volta a Imperatriz, Maria e Dalva voltaram à escola. Todos os dias faziam o mesmo percurso na ida e na volta, caminhando pelas ruas de Imperatriz. A década de 70 era muito diferente do século XXI e as moças podiam andar mais tranquilamente pelas calçadas da cidade.

Embora a dedicação aos estudos para o vestibular fosse exaustiva e necessitasse de empenho integral, as caminhadas de ida e volta para a escola sempre eram terapêuticas e, muitas vezes, com folga até para uma pipoca, depois de terminada a aula.

A regra para se conviver nos anos 1970 é cumprimentar as pessoas no meio da rua. Dar bom dia, boa tarde e boa noite é uma etiqueta social indispensável da época. Desta maneira, todos se conheciam, e mesmo se fazia necessário conhecer quem não se conhecia, para conviver em uma sociedade como aquela, Imperatriz.

Uma moça como Maria sempre cumprimenta a todos por onde passa e nunca passa despercebida. Nesse vai e vem e troca de cumprimentos, Maria se encantou por um rapaz, que cruzava seu caminho de propósito na volta da escola, todos os dias.

No início, um simples bom dia, boa tarde. Depois, sorrisos tímidos; adiante uma mão no cabelo. O sorriso faceiro daquele rapaz que insistia em  cumprimentá-la todos os dias fazia-a sentir-se especial, incomparavelmente mais do que os outros tantos cumprimentos que recebia.

Um dia o rapaz tomou coragem e perguntou a Maria se podiam conversar, se podia acompanhá-la. Depois de tantos bons dias e boas tardes, Maria permitiu o inevitável. O rapaz a convidou para um sorvete no fim da tarde. Conversaram e não fora mais possível deixar de se encontrar.

O namoro foi surgindo um tanto célere, e logo estariam apaixonados. A amiga Dalva só ouvia falar daquele romance, que havia começado dos cumprimentos da manhã e da tarde do rapaz que encantou Maria.

Num certo dia, após semanas vendo o rapaz na Praça de Fátima, resolveu apresentá-lo para a amiga Dalva. Chegando lá, ambas ficaram estupefatas, e pensando com seus botões:

– Mas é o namorado daquela moça do ônibus que a Maria disse que era feio!

O namorado de Maria era João. O moreno charmoso, com sorriso encantador, que Maria havia desprezado em um primeiro momento naquele dia no ônibus com a amiga. Será que foram ciúmes?

O namoro de João e Carolina não vingara. Nas ruas de Imperatriz, ao ver Maria em direção à escola, logo se encantara com aquela moça de cabelos longos, de jeitinho singular, de olhar ímpar. João não mediu esforços nem palavras; logo deu-se a cortejar a moça que queria como namorada, como seu amor.

JOÃO E MARIA

Os dois, apaixonados, começaram um romance à moda antiga; daqueles que então se permitiam na sociedade imperatrizense e balsense. João acompanhava Maria até a escola e de volta à sua casa. Às vezes, iam ao cinema de mãos dadas ou ao carro de pipoca na praça; mas sempre aos olhos da sociedade que, notadamente, vigiava o romance dos dois.

O amor dos dois se avultava a cada dia, apesar do pouco tempo que se conheciam. Era já chegada a hora de João ir com Maria ver a família da moça, para pedi-la em casamento. Era essa uma ideia corrente.

Mas não se iludam, João não tinha posses. Só detinha charme e juventude. Convencer a família de Maria de que poderia dar-lhe a vida rica que almejavam para ela não seria tarefa fácil. Adicione também um tempero a esta história: a sociedade balsense fazia-se permeada por pessoas brancas e de posses, fazendeiros com grandes dotes para as donzelas que criaram por toda uma vida.

Essa era Maria, uma moça de família rica, bem criada, inteligente, branca de cabelos lisos e sedosos, preparada para se casar com um homem que pudesse lhe prover uma vida de rainha. Não mais que de repente encontrara um moço muito longe de tal padrão; negro, sem posses. Apenas uma paixão e a promessa de uma vida de felicidade.

Chegou então o dia tão esperado, em que João conheceria a família de sua amada e a pediria em casamento. Ambos eram só expectativas. Maria foi na frente para Balsas. Disse à família que queria apresentar o tal rapaz. Fizeram as salas. Preparou-se um almoço especial, aprontaram Maria, arrumou-se a casa a caráter. Tudo como é de costume quando se recebe uma visita tão esperada no Sertão Nordestino.

João viajou longas seis horas em um ônibus de Imperatriz para Balsas. Era julho, mês em que Maria estava mais uma vez de férias. Mês em que o calor chega com tudo pelas terras maranhenses. Já não bastasse o nervoso que sentia por ir conhecer a família de sua amada, João muito suava com os 38° que fazia no Sul do Maranhão. Era um frio na barriga e o suor caindo da testa, acalentados pelo vento do janelão do ônibus que faz linha no sertão.

Chegando à cidade, João foi ter com Maria e sua família, para então fazer o tão desejado pedido. A aflição que sentira durante a viagem tinha fundamento. Chegando à casa da família de sua futura noiva, a recepção, que deveria ser de alegria, fora de espanto. O sorriso deu lugar à expressão sisuda, casmurra mesmo, de seus pais; que avistaram aquele jovem de pele negra, camisa suada e o sorrido como o seu único tesouro.

João: – Boa tarde! Eu sou João, namorado de Maria.

– Boa tarde! – respondeu seu Adalberto, pai de Maria, sem convidar o rapaz para entrar.

Maria logo percebeu a situação vexatória e chamou João para dentro da residência.

Maria: – Entre João. Estes são meus pais – Seu Adalberto e Dona Firmina.

João pediu licença, entrou na residência, cumprimentou novamente os futuros sogros; mas um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente, da situação. No entanto, o namorado foi direto ao ponto.

João: – Seu Adalberto, eu me chamo João Antônio da Silva. Nasci em um interior chamado Pau Ferrado, no Maranhão; mas vivo em Imperatriz há muitos anos, servindo o Exército. Hoje estou aqui para pedir a mão de sua filha, Maria, em casamento. Eu não tenho posses, mas se o senhor me permitir, farei tudo para dar uma vida de princesa à sua filha. Nada vai faltar a ela, isso eu lhe prometo.

Seu Adalberto era um senhor típico do sertão. Um típico coronel nordestino; meio fazendeiro, meio senhor feudal. Não era de meias palavras. Não tinha cordialidade, aquele homem alto, no auge dos seus 70 anos; seguindo as tradições que herdara de seus antepassados. Não era de sorrir, apesar de amar a filha, sempre levava sua criação à rédea curta, assim como todas as relações que mantinha. Naquela época, era o comum, como se proibido fosse ao macho aparentar felicidade ou compaixão, não combinada com a marca de virilidade que precisavam carregar tal o modelo exigido pela sociedade.

Olhou de cima a baixo aquele rapaz que lhe dirigia a palavra. Calou-se por alguns minutos, provocando um silêncio ensurdecedor. A mãe de Maria, Dona Firmina, também não disse nada, mas dizia tudo com o olhar de julgamento para o jovem rapaz que pedia a mão de sua filha em casamento.

Só depois de muitos olhares de Seu Adalberto, de Dona Firmina e da ansiedade de Maria e João, quebrou-se o silêncio. O patriarca disse, então, o que pensava da união.

Seu Adalberto: – Seu João, o senhor chega aqui na minha casa, pedindo a minha filha em casamento. Mas o senhor nem me conhece nem conhece minha família. Já me disse que não tem posses. Não tem uma renda nem uma casa pra colocar Maria.

E, muito rude, seguiu: – Milha filha foi muito bem criada. Desde criança sempre dei a melhor educação, a melhor roupa, tudo o que eu podia dar de melhor pra ela se casar com um homem à altura. Não com um negrinho pé-rapado que me aparece na minha porta sem nem eu saber de onde vem. Portanto, tome seu rumo e vá-se embora que minha filha eu não criei pra casar com negrinho pobre, não.

Maria então se desespera. Interpela o pai, depois daquele discurso que acabara com as expectativas de tornar-se noiva de João.

Maria: – Mas pai! João é o homem que eu amo!

Seu Adalberto: – Cale a boca Maria, que eu não lhe criei pra se casar com qualquer um que aparece na minha porta!

João, então, protesta contra a fala do senhor, na esperança de casar-se com sua amada:

 João: – Com todo respeito, seu Adalberto, eu não tenho posses, nem nome. Sou negro, sim senhor, mas eu sou homem honesto, trabalhador. Eu posso não dar ouro nem joia pra Maria, mas eu vou trabalhar até o último de meus dias para nunca faltar nada a ela.

Seu Adalberto: – Vá-se embora daqui que eu não quero mais conversa com o senhor. Já falei que eu eduquei minha filha pra casar com homem de bem, pra dar vida melhor do que eu mesmo dou pra ela todos esses anos. Menina educada, instruída, vai casar com um neguinho igual você?

João foi embora. Maria foi para o quarto chorar; enquanto o almoço esfriava, sem ninguém ter aproveitado daquela casa arrumada para a tal ocasião especial. João voltara para Imperatriz e Maria passou mais um mês na casa dos pais. Em agosto, seria o dia para que ela voltasse aos estudos, mas fora proibida pela família, por causa do namoro com João.

O CASAMENTO

Passaram-se alguns meses e Maria não terminou o romance com João. Apesar de a família não ter permitido o relacionamento, ela continuava a se comunicar com o amado por cartas, com a ajuda da amiga Dalva.

Passaram-se alguns meses de vácuo no relacionamento até que em um dia Maria disse que precisava ir à feira comprar umas coisas.  Na verdade, já estava tudo acordado: ela ia se encontrar com a amiga Dalva, que já estava com uma passagem de ônibus que lhe levaria até Imperatriz para lá se casar com seu amado.

Dito e feito. Tudo saiu como combinado. Maria embarcou no mês de dezembro para o destino sonhado – ser a esposa daquele com quem mantivera tão puro relacionamento. Foi recebida na Rodoviária de Imperatriz com um buquê de flores silvestres, colhidas pelo próprio namorado, para então terem a vida que sempre sonharam.

Os dois não tinham muito. Maria usou uma roupa que Dalva havia lhe arrumado para ir ao cartório casar-se com João. O noivo, como era do Exército, casou-se fardado. Uma cerimônia simples, à luz do dia, sem comemoração, apenas com Dalva e o melhor amigo de João, Tadeu, como testemunhas do ato.

A lua-de-mel foi mesmo na casa alugada que João escolhera para os dois viverem. Simples, geminada com outras casas, como é de costume pelos bairros de Imperatriz. Aquele dia parecia ser o início de um sonho de uma vida simples, mas cheia de amor e aventura de dois jovens que se conheceram nas ruas de Imperatriz. Mas esta história tem muito pano para as mangas.

SOBRE A AUTORA – Iane Carolina Silva é piauiense, mas vive em Imperatriz há 11 anos. É formada em Jornalismo pela UFPI e pós-graduada em Comunicação Institucional pela Metodista-SP. Com 41 anos, escreve poesias desde os 14. É produtora cultural, elaboradora de projetos, produtora de audiovisual e assessora de imprensa do Ministério Público do Maranhão. Apaixonada por teatro e cinema, escreve contos inspirados em histórias reais, motivada pelas pessoas que conhece na sua vivência com o jornalismo. Recebeu o Prêmio Maranhão de Literatura (2024), realizado pela Secretaria de Cultura do Maranhão. Também é colunista do Portal Acesse Piauí e agente exclusiva do cantor e compositor Erasmo Dibell.

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