
Era por volta das 23 horas quando Edinho, deitado na cama, sentiu o silêncio da noite ser interrompido por um barulho que o fez estremecer. O som inconfundível de um chuveiro sendo ligado ecoou pela casa. Ele se levantou num pulo, sentindo o coração acelerar. Morava sozinho, e ninguém deveria estar ali.
Por um instante, ele ficou imóvel, ouvindo o som da água correndo. “Será que esqueci o chuveiro aberto?”, pensou, tentando encontrar uma explicação lógica. No entanto, ele sabia que não havia usado o banheiro desde cedo. Decidiu, então, que precisava verificar.
Caminhou a passos lentos pelo corredor mal iluminado, cada tábua rangendo sob seus pés aumentava sua ansiedade. Chegando à porta do banheiro, o som era mais forte, como se o chuveiro estivesse completamente aberto. Com a mão trêmula, empurrou a porta devagar. O vapor que esperava encontrar não estava lá. A luz fria da lâmpada revelou um banheiro seco e sem vestígios de água.
Edinho olhou para o chuveiro. A torneira estava fechada. Não havia uma gota caindo, mas o barulho persistia. Ele desligou a lâmpada, ficou em silêncio absoluto, mas ainda assim ouvia o barulho da água… em sua cabeça.
Um arrepio percorreu sua espinha. Algo estava errado, muito errado. Ele foi até a pia e jogou água fria no rosto, tentando clarear os pensamentos, mas nada mudava a estranha sensação de que havia alguém ou algo ali com ele.
De repente, um estrondo. Edinho se virou a tempo de ver a porta do banheiro bater com violência, trancando-o por dentro. O barulho do chuveiro cessou abruptamente. O coração de Edinho parecia que iria explodir de tanto bater. Tentou girar a maçaneta, mas não se mexia. A escuridão era completa.
Foi então que, no silêncio absoluto, ouviu uma respiração pesada atrás de si. Lenta e profunda, como se estivesse a poucos centímetros. O pânico tomou conta de seu corpo. Edinho sentiu um frio inexplicável ao seu redor, e uma presença invisível, mas inegável, o rodeava.
Ele fechou os olhos, desejando acordar de um pesadelo, mas, quando abriu os olhos novamente, o chuveiro havia se ligado. Desta vez, a água corria e uma sombra pairava sob ela.
Já era quase meia-noite, e Edinho, deitado em sua cama, tentava se convencer de que o barulho que ouvira minutos antes era apenas fruto de sua imaginação. O som familiar do chuveiro ligando e desligando sozinho já havia perturbado outras noites, mas nunca tanto quanto agora. Dessa vez, o som era mais real, mais intenso e, a cada segundo, a sensação de que algo estava muito errado tomava conta dele.
Seu coração batia acelerado, e uma gota de suor descia por sua testa. Ele tentava controlar a respiração, mas o pânico crescia. “Deve ser um problema na instalação”, pensava, tentando acalmar-se. No entanto, aquela explicação já não parecia suficiente. Havia algo mais. Algo que ele não conseguia entender.
Com o som da água correndo ecoando pela casa, Edinho, nervoso, decidiu enfrentar o medo. Saiu da cama, sentindo o piso gelado sob os pés descalços, e caminhou até o banheiro. Ao chegar à porta, ficou parado por um instante, ouvindo atentamente. O chuveiro estava ligado. Ele girou lentamente a maçaneta e empurrou a porta.
A cena à sua frente era estranha e surreal. A água escorria pelo chuveiro, mas o que o deixou quase paralisado foi perceber que as gotas que caíam não pareciam molhar o chão. Elas simplesmente desapareciam no ar, evaporando antes de tocar qualquer superfície. Ele esfregou os olhos, incrédulo, e entrou no banheiro. Aproximou-se do chuveiro com cautela, e foi quando algo ainda mais perturbador aconteceu.
O chuveiro se desligou sozinho, abruptamente, sem que ele sequer o tocasse. O silêncio que seguiu foi ensurdecedor. Mas não durou muito. O som da água recomeçou, dessa vez em um gotejar lento e ritmado, quase como se estivesse imitando uma batida. Edinho deu um passo para trás, sentindo a tensão no ar crescer.
Foi então que ele percebeu algo ainda mais aterrorizante: um reflexo estranho no espelho. Não era sua própria imagem. Havia uma figura nebulosa, indistinta, mas claramente observando-o. A figura parecia se aproximar do vidro, como se tentasse atravessá-lo.
Edinho tentou correr, mas suas pernas pareciam presas ao chão. O pânico o dominou, e seu corpo inteiro tremia. Ele sabia que não estava sozinho naquela casa. A figura no espelho deu um último passo e, quando ele pensou que veria seu rosto, o espelho se quebrou em mil pedaços.
Com o som dos cacos caindo, o chuveiro desligou de vez. E o silêncio que seguiu era tão profundo quanto o medo que ainda pulsava em seu peito. O que quer que estivesse ali, parecia ter ido embora – mas Edinho sabia que não estava a salvo. Não mais.
Daquele dia em diante, o chuveiro nunca mais ligou sozinho. Mas ele sabia, em cada noite solitária, que algo invisível estava sempre presente, observando, esperando.

SOBRE O AUTOR – José Conceição da Silva, popularmente Zezinho Silva, é nascido em novembro de 1963, em Santa Inês – MA. Filho de Dejanira e João Valdivino, é casado com Carlisvonete e pai de Jose Henrique, Felipe e Gyanna. É professor na rede estadual, no Colégio Militar Tiradentes, em Imperatriz.
Ama a literatura de cordel. É graduado em Letras pela UNIASSELVI. Tem três livros lançados: As Histórias do Lendário Joaquim da Mata, Um amor todo Especial e As outras aventuras de Joaquim da Mata e três participações, como coautor, em antologias. É membro da AAL (Academia Aramense de Letras).