Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz — [email protected]

O ano era 1990 e eu tinha apenas 18 anos. A idade perfeita para ousadias, para a gente achar que pode se lançar de cabeça no mundo, que pode lutar contra tudo e contra todos, usando a arma mais eficiente que temos à mão – no meu caso, uma arma feita de palavras orquestradas, na minha cabeça, magistralmente. Eu tinha 18 anos e estava contaminado pela poesia! O mundo era meu!
Foi com este espírito de combate pela literatura que surgiu “Anonimato”, meu primeiro (e único!) livro de poesia, uma verdadeira aventura artesanal.
O livro foi lançado em 09 de setembro de 1990, numa cerimônia/lançamento no auditório da Gerência de Educação da Secretaria Estadual de Educação, em Bacabal, minha cidade natal. Naquela noite, entre familiares, parentes próximos e mais distantes, colegas de infância, amigos dos meus amigos, curiosos, artistas e algumas autoridades locais, nasceu o poeta e, mais que isso, o escritor.
A “aventura artesanal” se deu em todos os sentidos. O livro, por exemplo, foi todo feito manualmente – eu mesmo redigi, em máquina de escrever elétrica, os poemas do livro, com o cuidado de já datilografar dentro do formato que ele teria. Depois, ele foi devidamente xerocopiado. E, por fim, um colega da época da Escola Técnica Federal do Maranhão (a saudosa ETFMA, onde muitos dos poemas foram feitos) fez a capa. Pronto, uma “ação entre amigos” que redundou num livro bastante rudimentar, graficamente falando.

Em termos de conteúdo, não sei avaliar, mesmo depois de tantos anos. Ele era uma espécie de síntese do que tinha “de melhor” na época, uma coletânea bastante particular e com um nome que, para mim, seria uma espécie de metáfora, de alegoria de que eu, realmente, era. Não sei se os leitores e as leitoras da época gostaram. Mas o livro vendeu toda a sua edição – de modestas 100 unidades, pagas pelo próprio autor – no caso, por mamãe, que sempre foi minha grande incentivadora.
Mamãe não teve prejuízo. A poesia também não, uma vez que eu, praticamente, a abandonei e trilhei o caminho da prosa, caminho no qual estou até hoje, numa trajetória que, entre altos e baixos, completa, este setembro, 35 anos.
Uma vez, numa conversa regada a uns bons copos de cerveja, um amigo das antigas me disse, a despeito de eu ter lhe perguntado se ele me achava um bom escritor, que eu era um bom prosador. Não me lembro se ele leu o “Anonimato”. Mas, lendo ou não lendo, acho que acertou.
Bom ou não (esse conceito é bastante subjetivo; já tive leitores que, depois de lê-lo, disseram que o livro trazia o germe de um poeta criativo etc), o certo é que o “Anonimato” puxou o cordão de uma penca de livros que foram sendo imaginados, criados e publicados. Já não mais em formato artesanal. Já em forma de “livro de editora”, mesmo. Alguns até consagrados como ganhadores de editais de fomento e de prêmios literários.
Preciso registrar que o professor, jornalista e crítico literário José Neres (um dos maiores intelectuais da nova geração de escritores maranhenses) fez uma nova edição, em PDF, do “Anonimato”, com nova capa, que manteve o “espírito” do livro primeiro, me dando este presente e me permitindo, três décadas e meia depois, dividir esta empreitada juvenil e literária com os amigos e leitores.
Você pode ler a nova edição aqui:
Na minha trajetória literária, ao todo, são: 1 livro de poemas; 02 participações nas antologias da Academia Bacabalense de Letras; 07 livros individuais de contos; 02 participações em antologias de contos; 02 livros de crônicas; 01 novela, totalizando 15 produções literárias. E mais algumas obras que estão no computador, esperando uma hora adequada para virarem páginas de papel ou de pixels.
Há também uma carreira na literatura acadêmico-científica, que seguiu em paralelo à literatura (ou, mais honesto seria dizer: a literatura seguiu em paralelo a ela, que, afinal, é a que me paga as contas e me bota a comida na mesa…). Juntando-se os livros autorais, as participações em coletâneas de artigo e os livros como organizador, são 20 obras já lançadas neste campo.
Pari passu a este trabalho de autor, acabei também assumindo um papel que, para mim, hoje, é tão importante quanto lançar um livro: o de divulgador literário. Já tem quase 10 anos que assumi, com a entrada na Academia Imperatrizense de Letras, também a função de editor-chefe do Caderno Extra, um espaço literário reservado no Jornal O Progresso para a divulgação do trabalho da nossa AIL, pegando o bastão do meu guru literário e grande amigo, Livaldo Fregona, escritor capixaba talentosíssimo.
Dentro dessa década, pude criar projetos como: “Cadernos de Literatura Maranhense”, “Perfis dos Acadêmicos e Acadêmicas da AIL”, “Mural das Minas” (este rendeu um belo livro de perfis literários de escritoras maranhenses contemporâneas, lançado em 2024), “Prêmio Jovens Talentos da Literatura Maranhense” e os mais recentes, “Um conto aos Domingos” (que vai publicar 100 páginas de contistas maranhenses ou que moram no Maranhão) e “Diálogos com a Literatura Maranhense” (publicação de uma série de entrevistas, capitaneadas pelo querido escritor Paulo Rodrigues).
Esses projetos, desde 2021, também são abrigados, simultaneamente ao jornal, no Site Região Tocantina, do qual sou editor-chefe.
Tudo isso veio a reboque de um desejo que surgiu lá no “Anonimato” e que foi me puxando pela vida, esses anos todos: o de criar uma obra, de deixar um registro literário no/para o mundo. Uma vez, em conversa com minha irmã mais velha sobre o futuro (isso há uns 30 anos, acho), ela me perguntou o que eu queria ser. E eu lhe disse, sem pensar muito: “Eu queria ser nota de rodapé”.
Talvez, além de uma ou outra nota de rodapé, o futuro me reserve o espaço em algumas listas de referências bibliográficas.
O tempo dirá.