segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DIÁLOGOS COM A LITERATURA MARANHENSE – ENTREVISTAS COM ESCRITORES E ESCRITORAS – #02 – Luiza Cantanhêde: Virar o avesso do mundo através da poesia (Por Paulo Rodrigues)

Publicado em 7 de setembro de 2025, às 17:31

Luiza Cantanhêde, natural de Santa Inês/MA e radicada em Teresina/PI desde 1984, é técnica em contabilidade e poeta. Atualmente, é secretária da Academia Piauiense de Poesia e diretora da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Maranhão.
Autora de cinco livros, tem poemas publicados em antologias nacionais e internacionais, com traduções para o grego, espanhol e italiano. Sua trajetória literária é marcada por diversas premiações, incluindo o Prêmio Destaque Nordeste (2019), o Prêmio Nacional Selo Off Flip – Edição Nordeste (2023) e o 1º Concurso Literário da Feira da Literatura Piauiense (2024).

(Texto publicado, originalmente, no site Sacada Literária)


Paulo Rodrigues – Poeta Luiza Cantanhêde, você recebeu uma atenção da crítica sempre positiva em relação aos seus livros. O olhar crítico é importante?
Luiza Cantanhêde – A recepção positiva da crítica me alegra, claro, especialmente quando vem acompanhada de escuta sensível e de leitura que vai além da superfície. Mas o que me move é anterior ao aplauso e sobrevive mesmo à ausência dele.
É essencial lembrar que a escrita nasce de outro lugar: de um impulso vital, de uma urgência que não espera validação. O que me move é o desejo de nomear o indizível, de dar corpo e voz às ausências, às margens, às memórias silenciadas. Quando a crítica reconhece isso, é uma alegria — não por vaidade, mas por saber que a palavra alcançou alguém em sua inteireza. No entanto, escrevo antes de tudo por necessidade — estética, política e existencial.
Paulo Rodrigues – Luiza, como você avalia os seus quatro primeiros livros de poesia?
Luiza Cantanhêde – Paulo, vejo meus quatro primeiros livros como territórios de busca. Cada um carrega o seu tempo, suas perguntas, suas urgências. Neles, há o exercício de uma voz que ainda tateava, mas já sabia o que precisava dizer — mesmo quando não sabia como.
Avaliar esses livros é também revisitar a pessoa que eu era, os afetos e feridas que me habitam. Eles não são perfeitos — e ainda bem. São testemunhos vivos do que me atravessava.
Eu estava tentando me ouvir, tentando entender o que é ser mulher, poeta, nordestina, corpo marcado por ausências e resistências. Cada livro é um grito de presença. Um jeito de não desaparecer.
Não penso em corrigi-los ou “melhorá-los”. Eles foram necessários. Foram honestos. E isso me basta. Eles são parte da casa onde minha linguagem nasceu.
Paulo Rodrigues – A poeta Ana Cristina Cesar disse num verso: “Eu não sabia/ que virar pelo avesso/ era uma experiência mortal”. A poesia de Luiza Cantanhêde vira a existência pelo avesso? A “poeta marginal” tinha razão?
Luiza Cantanhêde – Sim, a poeta marginal tinha toda razão. Virar pelo avesso é uma experiência mortal — e vital. Porque escrever poesia, pra mim, é exatamente isso: desfiar a carne do cotidiano até que ela revele o que há por baixo, por dentro, por trás. É entrar nas frestas da dor, da memória, da injustiça, e transformá-las em linguagem.
Minha escrita sempre se move nesse impulso: de virar o avesso do mundo, mesmo que doa, mesmo que sangre. A poesia que me atravessa não é contemplação passiva — é enfrentamento, é rasura, é reconstrução. É nesse avesso que a verdade pulsa, e às vezes, sobreviver a isso já é um ato poético.

Paulo Rodrigues – Fale um pouco sobre o livro Alfinetes. Ele está dividido em quatro partes. Como elas conversam? As dez primeiras pontadas foram pensadas para furar os olhos cansados?
Luiza Cantanhêde – Alfinetes é um livro que não pede licença. Ele chega espetando, porque foi escrito num momento em que eu mesma estava em carne viva — e queria que o leitor também sentisse isso. A divisão em quatro partes não é só formal, é quase orgânica. Cada uma delas representa um tipo de ferida, um tipo de resistência.
As dez primeiras pontadas, sim, foram pensadas como uma espécie de provocação inicial — uma tentativa de furar os olhos acostumados com a indiferença, com a leitura superficial, com a poesia adocicada. Elas são agulhas: pequenas, mas incisivas.
Depois disso, o livro caminha por outros terrenos: o corpo que sangra, o amor que cura e fere, o cotidiano atravessado por silêncios, e por fim, a memória — esse alfinete invisível que nos prende ao que fomos e ainda somos. No fundo, essas partes conversam como cicatrizes de uma mesma pele. Alfinetes é um livro de cortes, mas também de costuras — entre linguagem e vida, entre dor e poesia.
Paulo Rodrigues – A Literatura, para você, é um instrumento de conscientização, de reflexão? Você pretende interferir na realidade quando escreve?
Luiza Cantanhêde – Sim, sem dúvida. A literatura, pra mim, é faca e semente. É instrumento de reflexão, mas também de convocação. Escrever, no meu caso, nunca foi apenas um gesto estético — sempre foi também um gesto ético, existencial, político.
Quando escrevo, estou interferindo na realidade — mesmo que de forma sutil, simbólica ou poética. Porque toda vez que a palavra dá corpo a uma dor silenciada, a uma memória marginalizada, a uma verdade negada, ela já está reconfigurando o mundo à sua maneira.
Eu escrevo com a intenção de tocar, de acordar, de incomodar às vezes. Mas não num tom professoral — é um chamado sensível. Quero que meus poemas sejam como farpas ou fósforos: que fiquem sob a pele, que acendam alguma coisa. Se uma pessoa for atravessada por uma imagem, um verso, uma verdade que a faça ver diferente — isso já é interferência. E é isso que me move.
Paulo Rodrigues – Como você analisa o cenário da poesia contemporânea brasileira? Quais poetas destacaria no cenário maranhense?
Luiza Cantanhêde – Este cenário tem sido marcado por uma diversidade impressionante de vozes, temas e estilos, sobretudo das vozes outrora silenciadas, das ditas minorias, das periferias, que vêm rompendo as barreiras tradicionais de publicações, e aqui eu destaco o papel importantíssimo das mulheres escritoras.
Essa diversidade reflete as complexidades da sociedade atual, abordando questões como identidade, gênero, raça, política e outras questões sociais, o que enriquece a cena Literária oferecendo perspectivas multifacetadas e estimulando diálogos importantes. Quanto ao cenário maranhense, é impossível falar de poesia sem citar Ferreira Gullar, Nauro Machado e Salgado Maranhão, porém o campo Literário é vasto e em constante evolução, há uma nova safra de excelência na poesia contemporânea maranhense e um movimento forte de autores e autoras de um potencial criativo que alargam a força da literatura de nosso estado, onde, modéstia à parte, nos inserimos.
Paulo Rodrigues – Os prêmios literários são importantes?
Luiza Cantanhêde – A poesia tem me levado a lugares impensados, mas em todos eu seguro nas mãos dos meus ancestrais, não nego a minha identidade. Carrego comigo todas as marcas, as feridas e as cicatrizes de todas as lutas que travei para conquistar estes reconhecimentos. Os prêmios abalizam a minha produção, indicam que esta produção vem ganhando força e qualidade discursiva, são uma validação da qualidade do nosso trabalho, nos dão credibilidade, abrindo portas para novas oportunidades de publicação, e participação em eventos literários.
Venci o prêmio destaque Nordeste em 2019, conquistei o primeiro lugar no Prêmio Nacional Off Flip 2023, e em 2024, ganhei o concurso literário na FELIPI – Feira da Literatura Piauiense. Os prêmios chamam a atenção para leitura da obra. Os leitores precisam conhecer o avesso da minha poesia!

SOBRE O ENTREVISTADOR – Paulo Rodrigues é graduado em Letras e Filosofia. Professor de língua materna e literatura da rede estadual de ensino. Foi secretário de educação de Santa Inês e gerente regional de educação do Vale do Pindaré. É poeta, prosador, ensaísta e jornalista. Autor de, entre outros, O Abrigo de Orfeu e Escombros de Ninguém.Ganhou os prêmios Álvares de Azevedo da UBE/RJ, em 2019; Literatura e Fechadura de São Paulo, em 2020; Marcus Vinicius Quiroga de Poesia da UBE/RJ, em 2024. É membro efetivo da academia Caxiense de Letras e da Academia Poética Brasileira.

SOBRE A ENTREVISTADA – Luiza Cantanhêde é natural de Santa Inês-MA. Formada em Contabilidade. É membro de diversas entidades literárias. Tem poemas publicados em antologias nacionais e internacionais. Publicou os livros de poesia “Palafitas” (2016), “Amanhã, serei uma flor Insana” (2018) e “Pequeno ensaio amoroso”(2019), pela editora Penalux.Tem poemas traduzidos para o italiano, espanhol e grego.Recebeu em 2019 o “Prêmio Destaque Nordeste”, categoria poesia, em Pernambuco.

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