terça-feira, 15 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #046 – VICIADA (Daphine Silva)

Publicado em 31 de agosto de 2025, às 10:07

Ouvi uma entrevista na qual a convidada falava do seu vício em leitura. Como aquilo a deixava mal e prejudicada devido à necessidade da sociedade por saber a respeito dos seus hábitos e da sua vida social. Como ela gostaria de ser mais ativa na internet, no entanto, é impossibilitada pelo seu vício literário. O sofrimento é tanto que miopia e astigmatismo foram acentuados pelo efeito do tamanho da letra nos livros e da luz da tela do computador. Paralelo a esse infortúnio que é um “vício” na vida de um ser humano, a ouço comentar sobre assuntos pertinentes às discussões atuais, que a ela não pareceram nada atualizados.
Por isso, noto como é interessante tratar sobre o porquê de algumas mudanças de nomenclaturas acontecerem. A exemplo, com estudos percebemos a necessidade de nomear os povos originários de indígenas, já que eles não são os habitantes da Índia, como acreditava nosso “descobridor”. Passamos a denominar as pessoas de pele escura que foram aprisionadas no passado de escravizados e não de escravos, visto que a condição era inata somente devido à cultura do colonizador, e não da condição humana dessas pessoas.
Assim, preciso explicar que são necessárias algumas mudanças em termos já ultrapassados como os citados, que talvez eu até os tenha comentado de maneira incorreta, como também é preciso ignorar algumas mudanças. Não concordo em parar de usar o termo viciado para adicto. Adicção é mais completo e menos pejorativo, eu sei. Porém, quero falar da minha compulsão, que acredito ser um vício, e não me conformo em chamar de adicto.
Quero desabafar que não aguento mais não conseguir parar de comprar livros. Nossa, tantos problemas de adicção para resolver, e eu tratando sobre uma compulsão literária? Sim, exato. Primeiro que problema de adicção não se resolve, se trata. Quando se consegue tratar. Enfim, não consigo me tratar. Não encontro tratamento, fórmula, receita, dicas, ajuda ou escape no momento do desejo.
Sempre quero e sempre acredito que preciso. Não dou conta de ler tudo que compro, tampouco me sinto confortável com a quantidade de livros que já li. Não acredito que há pessoas que não gostam de ler. Só não descobriram como ou o que ler. Agora mesmo vi um adolescente lendo um texto absurdo que para mim não fez nenhum sentido, mas ele conseguiu reproduzir exatamente o que leu em um áudio de celular com a eficiência de compilar a ideia em 30 segundos. Incrível!
Reproduzir e compilar, é possível, meus caros, mas não para mim, que sofro da prolixidade. Aliás, problema que a leitura não me ajudou a resolver, sei que não deve ser a quantidade somente do que se ler, mas a qualidade dos textos. Acreditem, já fui de Dante e Nietzsche a E. L. James, nada resolveu. Talvez, isso explique um pouco minha compulsão, ou talvez eu só tenha percebido isso agora quando iniciei esta escrita – que, por sinal, começou com algo que parecia não ter nada relacionado ao que estou escrevendo agora.
O fato é, este texto não será corrigido, as falhas e erros ortográficos serão expostos como foram escritos, não pretendo minimizá-los, se forem gritantes, ficarão. Se não existirem, aparecerão, se menos for do que comentei, ainda assim, estão aqui. Isto é um desabafo. Há dias não quero ler, não quero escrever, não quero fazer nada, somente dormir. Ao acordar e ver alguma publicidade de um livro de meu interesse, quero tê-lo. E o desejo, já sabemos: é o mal da humanidade, motivo do sofrimento.
Por isso, compro mais um livro. Quando o exemplar chega a casa, quero tirar delicadamente o plástico que envolve o volume, cheirar as páginas, escolher um marcador, me preparar confortavelmente para iniciar a leitura, parar no meio do material e empilhá-lo nas dezenas que estão à espera da continuidade da minha atenção. Não é porque não gostei do conteúdo que não termino a leitura, pelo contrário, é, na maioria das vezes, porque gostei tanto que não quero terminá-lo. Gosto de vê-lo parado a me esperar, imaginar como poderia terminar, e descobrir – quando finalmente resolvo voltar a ler – que o final foi mais pobre do que minha imaginação.
Com isso, começo um novo vício. Iniciar textos sem terminá-los. Essa adicção, nomeada por muitos como mau hábito, é recente em minha vida. Acredito que há tratamentos eficazes para ela. A compulsão da compra por livros, não acredito mais que haja tratamentos. Mesmo escrevendo que não os encontrei, na verdade, já tentei de muitas maneiras, tantas que não tenho disposição de escrevê-las aqui.
Agora vou dormir, vício que tenho desde nascença, não pretendo pará-lo, nem me medicar. A ideia é me afundar cada vez mais nesse universo obscuro, solitário e sem saída. Onde não há perspectiva de melhora, ajuda solidária, piedade ou escape. Só me resta a entrega incondicional, pois quando os olhos ardem e a mente retarda, já entendo que é do sono que preciso, e com isso, nada pode me deter. Sucumbo.

SOBRE A AUTORA – Daphne Jardim Sampaio Silva. Graduada em Comunicação Social e em Letras pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Mestra em Letras pela UFMA.
Desenvolveu a pesquisa: A narrativa fictícia escrita por fãs de Literatura Brasileira na internet: análise comparativa de fanfictions de Dom Casmurro (Machado de Assis), agora publicada como livro.
Ministra aulas de Literatura, Língua Espanhola e Língua Portuguesa.

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