O poeta Mario Quintana, em um de seus textos, afirmou que “O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família”. As pessoas passam, as coisas, às vezes ficam, para fazerem parte de um intrincado tecido que é a nossa história de vida.
Todos nós, mais cedo ou mais tarde, iremos passar pela experiência da perda de um ente querido. Nessas horas, as reações externas são muitas. Algumas pessoas choram, outras se calam, algumas desabam e outras se fortalecem para acudirem quem estiver sem forças. Mas, inevitavelmente, para além das aparências, todos sofrem. Todos sofrem.
E é na partida definitiva de uma pessoa amada que descobrimos que parte de nossa biografia não nos pertence, nunca nos pertenceu, já que muito daquilo que sabemos de nós mesmos são retalhos de memórias depositadas no fundo das recordações de outras pessoas. Por exemplo, só tomamos conhecimento de momentos decisivos de nossa infância, de nosso desenvolvimento, de nossas traquinagens… a partir do contato com outras pessoas que estavam a nosso lado, zelando para que cada um de nós tivéssemos direito àquilo que aquelas pessoas diziam que seria o nosso futuro e que agora podemos chamar de nosso passado, de nossa história de vida.
Então, quando uma pessoa amada segue rumo a sua viagem definitiva, leva em sua imaterial bagagem um pouco daquilo que talvez nem mesmo temos consciência de que um dia fomos. A cada partida, os que permanecem ficam mais incompletos, menos donos da própria história, mais pobres em informações…
Porém a morte não é um fim em si. Um corpo fica inerte. Uma respiração para. Um coração perde definitivamente sua força. Um cérebro apaga as alegrias e as dores de uma existência. Olhos se fecham para sempre e passam a receber outro tipo de luz, uma luz que nem imaginamos como é.
Mas a morte não é um fim em si.
Outros corpos se movimentam na vã tentativa de reanimar o que não tem mais como ser reanimado. Respirações sincopadas procuram o ar que falta para tornar visível e audível um incessante soluçar. Outros corações aceleram ao máximo com a notícia da partida de um ser amado. Diversos cérebros buscam registros de bons momentos vividos ao lado de quem partiu. Novas memórias se formam. Uns olhos se inundam de lágrimas, enquanto outros se perdem no vazio.
De qualquer forma, a morte não é um fim sem si. Quem partiu fisicamente acaba ganhando uma morada nas recordações dos que ficaram. Seus feitos, ações e gestos passam a ser revisitados em novas palavras, em novas conversas, até em novos sorrisos. Às vezes, imagens passam a ser compartilhadas e os viajantes do tempo comaçam a ter morada até mesmo nas retinas de desconhecidos.
Manuel Bandeira, em seu poema Consoada, deixou-nos uma bela mensagem sobre o estar ou não preparado para receber a visita da morte. Ele escreveu o seguinte:
Quando a Indesejada das gentes chegar
(não sei se dura ou caroável).
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria e diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios)
Encontrará lavrado campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Embora em outro texto, esse mesmo poeta pernambucano tenha dito que a morte “é o fim de todos os milagres” (Preparação para a morte), o leitor sempre pode ter o direito de discordar do autor e até dizer que, em muitos casos, a morte pode ser o início de grandes milagres. Do milagre de alguém se multiplicar nas falas e nas memórias alheias, no milagre de uma reconciliação unilateral, no milagre de um perdão que tinha a vida como único obstáculo. No milagre de se poder sentir que uma pessoa pode continuar viva mesmo fora de um corpo.
A morte não marca hora, mas, em muitos casos, manda seus sinais. Porém nós, envolvidos com as belezas e com as cruezas da vida, muitas vezes ignoramos esses sinais e seguimos tateantes pela “longa estrada da vida”, sem atentarmos para o fato de que cada passo dado pode ser um salto rumo a um destino irrefreável. Ou, como disse o sábio Mario Quintana: “Esse tic-tac dos relógios é a máquina de costura do Tempo a fabricar mortalhas”. E quando nossa mortalha estiver pronta? Que fazer? Não há como doá-la. Não há como passá-la adiante. Nossa mortalha é nossa “canoa de pau vinhático”, onde só cabe uma pessoa – nós, e que nos conduz pelas silenciosas trilhas de uma indecifrável terceira margem do rio, como nos ensinou Guimarães Rosa.
E depois da partida da pessoa amada o que nos resta? Restam os que seguem conosco e que precisam de um ombro amigo para suportar as saudades. Restam as recordações de bons momentos compartilhados. Resta também aquele relógio na parede a nos lembrar que todos nós temos um encontro marcado com a iniludível realidade que irmana vida e morte.
Para D. Geny Furtado da Costa Ferreira
(27.05.1925/10.05.2024)