sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

De contos, causos e oralidades – Quem conta um conto…

Publicado em 17 de outubro de 2023, às 9:45
Fonte: Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: FreePik Premium.

Pois é, não? Quem conta um conto, aumenta um ponto! Isso porque, ao recontar uma história, difícil é contá-la exatamente igual, um ou outro ponto sempre muda, ainda mais quando uma história é contada por várias pessoas, sob diferentes perspectivas. Daí porque se diz que uma história sempre tem várias versões, dependendo de quem a conta. E é por isso que os vencedores dirão que ganharam o jogo de futebol porque jogaram melhor, enquanto que quem perdeu dirá que houve trapaça, que os que ganharam compraram o juiz, ou que foram prejudicados pelas faltas graves que foram cometidas contra um ou outro de seus jogadores-chave, e por aí vai. Mas os contos, além de terem diferentes versões, têm outras vantagens.

Sim, exatamente isso! Por meio da contação de histórias podemos ganhar – para sempre – uma pessoa para o mundo dos livros. Foi o que aconteceu comigo, que acho que nunca teria me interessado pelos calhamaços de papel se antes não tivesse ouvido as muitas histórias que me contaram e que aguçaram minha curiosidade.

Foi exatamente durante a leitura de um romance, da autora espanhola Lucía Baquedano, que me pus a pensar sobre o poder dos contos, sobretudo na escola, ambiente em que eles não poderiam estar de fora por nada! O livro que eu estava lendo, Cinco pães de cevada, contava uma história que se passou em Navarra, Espanha, num povoado pobre e pequeno, suponho que lá pelos idos de 1960 e 1970.

Contava a história de Muriel, moça da capital, professora recém-formada, que fora mandada para um povoado para assumir a escola local. A escola era composta por uma única sala de aula e os alunos eram agrupados por idade, havia uma única professora e um único turno para todos. Ou seja: era tudo junto e misturado, como nas escolas de muito antigamente. Os alunos mais velhos se ocupavam dos mais novos e assim aprendiam e ajudavam a professora ao mesmo tempo.

Com muita raiva e má vontade Muriel foi assumir o seu cargo no povoado. Chegando lá, no entanto, com o passar do tempo, foi percebendo a importância do trabalho que poderia realizar com as pessoas daquele lugarejo. O primeiro desafio foi convencer os pais a tirar os filhos da roça e mandá-los para a escola. Num dado momento, a professora se deu conta que em sua lista faltava uma única criança, e decidiu ir até a casa da família para saber por que a menina não ia às aulas. A casa da família era grande, bonita e ficava bem afastada do centro do povoado. Muriel chamou e ninguém veio e, como a porta estava aberta, foi entrando. Entrou e ficou observando, e achou que naquela casa havia algo de estranho, mas não soube dizer logo o que era.

Após trocar umas palavras bastante atropeladas com um dos membros da família, cujos mistérios mais tarde se revelariam, Muriel volta para casa e, durante o caminho, vai pensando no que diabos aquela casa tinha de diferente. Depois de algum tempo ela percebeu que a casa era diferente das demais do povoado porque nela havia livros, e foi aí que teve a brilhante ideia de começar a montar uma biblioteca na escola e de tentar fazer com que seus alunos se tornassem leitores.

Uma vez tendo conseguido os primeiros livros, havia um problema: como despertar o interesse dos alunos por eles? Foi então que ela teve a ideia de usar os contos! Todos os dias Muriel tirava uma parte da aula para simplesmente se sentar com os alunos em roda e contar para eles uma história. Com o tempo, vendo que eles adoravam aquele momento, ela passou a contar as histórias pela metade, sem revelar o desfecho, na esperança de que os alunos se sentissem motivados a lerem os respectivos livros e ver como acabavam as histórias. E para garantir que todos os alunos pegassem pelo menos um livro para ler, ela começou a fazer um catálogo das leituras a partir das sinopses ou resumos feitos pelos próprios alunos, o que também os incentivava a escrever sobre o que haviam lido, mas sem revelar os segredos da história.

No princípio, a estratégia pareceu não ter surtido efeito, mas, com o passar do tempo, a biblioteca foi se tornando um sucesso, e até os pais dos alunos, que nunca antes haviam lido um único livro, se sentiram motivados a deixarem a vergonha de lado e passaram a pedir livros emprestados. E não custa muito imaginar que a vida do povoado mudou completamente depois que a biblioteca da escola passou a funcionar.

O ser humano adora contar histórias, todo mundo tem histórias para contar, basta que se crie, em casa e nas escolas, o ambiente para que as pessoas percam a vergonha de contar seus contos e causos. Aliás, “Sem vergonha de contar” é o título de um dos blogs que mantive por um bom tempo, junto com uma amiga escritora de Santa Catarina, a Michele Calliari Marchese, que também adora contos e causos. Faz tempo que o blog não é atualizado, mas segue existindo, com os contos e causos que por um bom tempo nos acompanharam, inclusive alguns contos produzidos por crianças num projeto de incentivo à escrita, realizado por uma professora mineira que trabalhava (ou segue trabalhando) como bibliotecária numa escola e adorava ler e contar histórias.

Contar contos, além de aumentar pontos e ajudar a criar novos leitores, não custa nada! Pois até o tempo que se gasta preparando os contos deixa de contar, no meio do prazer e da alegria que a contação nos dá!

A propósito…

Já contou um conto hoje?

Pois então, não perca tempo!

Quem conta um conto

Gera no mundo

Tantin de paz,

Pouquin de alento!

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