sábado, 17 de outubro de 2026

Mural das Minas #14: LIRATELMA CERQUEIRA: A PALAVRA MAIS SENSÍVEL

Publicado em 19 de agosto de 2022, às 17:10

Liratelma Alves Cerqueira é formada em Letras pela UFPB, Mestra em Ciências da Educação, especialista em Linguística Aplicada ao ensino de Língua Portuguesa e em Morfologia e Sintaxe da Língua Portuguesa.
Em 1975, saiu de Cajazeiras-PB, a convite do Dr. José de Ribamar Fiquene, para implantar o ensino superior na Região Tocantina, através da Faculdade de Educação de Imperatriz, encampada pela UEMA, em 1980.
Na Uema, foi Chefe do Departamento de Letras de 1977 a 1994, Diretora do CESI/UEMA e Conselheira dos Órgãos Superiores da Universidade.
Como autora, participou de “Antologia – Contos e Crônicas”, “Perfis Literários”, “Imperatriz – cidade da gente , v.1 e “Imperatriz – cidade da gente, v. 2”.
É membro da Academia Imperatrizense de Letras, onde ocupa a cadeira nº 39.

MASCARADOS

A morte impiedosa ronda o universo de forma tão dilacerante que obriga todo ser humano a proteger-se sob uma máscara, deixando-o sem rosto. Sem rosto, fica difícil o reconhecimento; sem rosto, não há como fazer uma leitura do estado da alma; sem rosto, não há tempo, nem idade; sem rosto, não se revela se é uma poeta ou uma simples poetisa… se aquela fala é ficção ou realidade. O explodir das expressões fisionômicas perde o dinamismo, sem o rosto.
Só por este motivo, a pandemia já se manifesta uma conspiração democrática, cujo vírus, silencioso e letal, espiona o tempo todo, a todos, sem exceção. Desde as leves nuvens matutinas, até à obscura distinção entre o dia e a noite; anula o status, a opressão, a intelectualização, a marginalização, as tradições, as relações (pessoais e de poder), as organizações sociais. E, por outros motivos: haverá lugar para as utopias, para a possibilidade do impossível, para a tecnologia da era midiática nas novas formas que restarem da humanidade pós-pandêmica?
Foi nessa contextura sem rascunho, sem referências antecedentes, sem ainda ser o que viria a ser, que a Doutora Maggi, professora universitária e pesquisadora, fez do seu consultório um lugar de ensaios e de pesquisas, um laboratório de “cases” em Covid-19. Escrevia os experimentos e experimentava o que escrevia. Afinal, estava cursando o último ano do seu PhD, cujo objeto de estudo era a sintomatologia desse demônio alado e invisível e suas novas maneiras de transmissão.
Esse é apenas um aspecto de quem se dedica a abordar, cientificamente e com amor, as possibilidades de encontrar a melhor terapia para tratar um vírus que leva vidas em uma sacola biodegradável, para serem jogadas a esmo, em valas sem lápides, nem sepulturas. Momentos sem discursos na boca, mas com muitos soluços subtraídos das dores e dos medos do contágio.
Conheci o trabalho da Dra. Maggi pelo “Lattes”. Ao terminar de ler, fechei o meu note e dormi, indizivelmente, mais aliviada e menos ansiosa, após 18 meses de angústias, inseguranças, ameaças e medos de sucumbir ao contágio que torna iguais os desiguais.
Também é sobre tristezas por não poder viajar, nem sequer abraçar. Cada saída de casa parece uma cilada, uma armadilha para meter-me debaixo da terra. Meu ego é um quarto assombrado cheio de amores mortos, defuntos queridos, amigos inesquecíveis, que se desfizeram em pó, asfixiados.
Agora, bem mais segura, pela crença inabalável na potencialidade da ciência, ajusto a máscara branca com as mãos bêbadas de álcool a 90°, e vou às compras.
“Quanto custa um quilo de AstraZeneca?”

OS EUS

De vez em quando, ele me visita. Quase sempre, escolhe um momento em que estou ouvindo uma música pelo celular, ou piruetando eufórica, em solitária dança, para tornar suportável a vida feita de retalhos, vista por dentro. A dança sempre me seduziu, por isso vivemos em plena concordância e disponível uma à outra.
Não sei se gostaria mesmo que ele pudesse ficar, naturalmente, comigo e tornar-se um membro amigo da minha família. Por amor, instalar-se na minha subjetividade com ouvidos serenos e adubar minhas dores.
Ele tem uma energia vital e é um bom jogador, mas, devo admitir que, algumas jogadas, certeiras e ameaçadoras, eram contra mim. Gosta de viajar e conhecer novas tarefas, novos discursos, novos oceanos, mas é incapaz de promover o uso disciplinado da razão e do bom senso nas suas relações. Além de péssimo em comunicação, descobri-lhe influenciado pelo (ego)centrismo, chegando à beira do fanatismo.
E eu, que detesto jogar, não me posso deixar sucumbir à verdade como eu a concebo, e à guerra contra as forças do orgulho, do egoísmo do estrelismo e do narcisismo. Sou pessoa normal, não adoto o silêncio como forma de comunicação.
Ele não faz perguntas; acha que já tem todas as respostas. Esquece as cicatrizes que causou, até as mais incuráveis, nem repara nas mensagens não respondidas (apesar de lidas). Não se dá conta de suas fraquezas, exceto quando tem de lutar contra uma avalancha de situações perturbadoras.
E eu, ah! Eu mereço alguém bom, porque sou do bem. Sou crente e não disfarço. Só um idiota não acreditaria em Deus, embora eu não viva a suplicar favores aos céus, ou o que sobra dos pedidos humanos… Às vezes, Deus precisa sair mais cedo. Aproveito, então, o recreio divino para anunciar que não consigo “dar a outra face” à porrada, muito menos acreditar que “Bem-aventurados são os pobres de espírito…” Sei que preciso perdoar, mas não sou obrigada a esquecer.
Foi no meio desse embate, num finzinho de tarde de um sábado, em início de mês, com a pandemia se dispersando, que minha consciência mandou o meu eu embora e me deixou só comigo. Agora, volto à minha própria existência e tenho a visão de mim mesma.
E é tão óbvia, que parece pueril, essa afirmação: Eu sabia que podia contar comigo mesma.

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