terça-feira, 28 de junho de 2022

De contos, causos e oralidades – Quando poesia é pão

Publicado em 13 de abril de 2022, às 8:52
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.

“E por aí, anda chovendo?” Essa é uma forma bem clichê de iniciar uma conversa, mas, ao que parece, tende a funcionar, ainda mais quando o tempo não está nada bom de verdade.

Eu aqui matutando, buscando sobre o que escrever para o público desta coluna, uma vez que escrever crônicas não é o mesmo que escrever postagens em uma rede social, e me pego pensando sobre o que os jornais tendem a publicar em tempos de guerra.

Fora a já esperada propaganda, a “receita” foi o gênero predileto no Brasil da ditadura militar de 1964, assim como a “nota de repúdio”, no Brasil de 2018 para cá, tornou-se um dos gêneros literários mais populares tsc, tsc, tsc…

E pensando nas pessoas que em época de guerra e ditaduras foram e continuam sendo obrigadas a publicar “receitas de bolo”, e até são presas – ou desaparecem – se ousam chamar as coisas pelos nomes verdadeiros, utilizo o espaço que tenho nesta coluna também para festejar a liberdade de ainda poder escrever sobre o que me move.

E para além das oralidades, muitas coisas, sim, me movem. Na coluna passada deixei aqui de presente três palavras, para que pudessem passar adiante desde que fossem positivas, porque em tempos de guerra, mais do que nunca, o mundo precisa de “paesia”: paz e poesia e de “pãesia”: pão e poesia ou poesia e pão. E há muitas coisas boas que se pode desejar só com três palavras, como por exemplo: “Que haja paz!”

Poesia é pão, pelo menos para mim, e também para tantos outros que fugiram perseguidos de suas terras para o exílio, que tiveram que deixar para trás tudo o que tinham e se tornaram refugiados e/ou emigrantes em qualquer outro lugar do mundo. E não falo só dos que fogem das guerras, mas também daqueles que são obrigados a se retirarem todos os anos de suas terras por motivos climáticos, por causa da seca, pela falta de perspectiva, enfim: ainda sinto nos lábios o sal das lágrimas quando tive que deixar minha São Luís e partir para outros lugares.

A saudade tem sabor e tem cheiro, a saudade dói, corta e é constante. Para mim, a saudade tem cor de juçara, cheiro de buriti e sabor de guaraná Jesus. E sempre que a saudade me aperta no estômago eu uso a pãesia, como esses versos da uruguaia Cristina Peri Rossi, que do exílio, sobre o exílio, e sobre o tempo “metafórico” de não muito tempo atrás, seguiu escrevendo:

Carta de Mamãe II

Tia Ângela pergunta por ti

cada vez que vem de visita

e eu respondo com evasivas

ou se diz evasões?

O gato saltou pela janela

e desapareceu

coisa de gatos

coisa de pessoas

A geada queimou todas as árvores

só um limoeiro sobreviveu

solitário no meio da tempestade

Nos disseram que com o novo general

as coisas iam mudar

mas se algo mudou

foi pra pior

O quitandeiro da esquina morreu

um infarto ou uma embolia

tua vó Maruja sempre com as varizes

e tua irmã com a úlcera

Me pergunto se por aí estará chovendo

às vezes conto as horas de diferença

o assunto dos hemisférios

Não te esqueças de nós

Que tanto te queremos.

Trecho de “Carta de Mamãe II”, publicado em Estado de exílio, Cristina Peri Rossi, editora Visor Libros. Tradução livre: Helena Frenzel.

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