quinta-feira, 11 de agosto de 2022

De contos, causos e oralidades – Metendo a colher no assunto

Publicado em 14 de fevereiro de 2022, às 9:49
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Freepik

Olhe, não é que eu esteja sem ideias, o que me falta neste momento são palavras alegres, dada a condição miserável do mundo. É pandemia, são rumores de guerra, crimes hediondos, tanta injustiça e descaramento que é difícil até pensar em palavras saltitantes, aquelas que se deixam prender num papel como se fosse a coisa mais natural do mundo.

E veja que, enquanto escrevo, tenho diante de mim zilhões de palavras, muitas embrulhadas em livros. Algumas delas abrigadas em revistas; outras, em jornais. Outras tantas, dispersas pela rede, palavras nem sempre alegres, mas, todas elas muito reais. Palavras autênticas que quase ninguém lê ou ouve no oceano das falsas. Haja palavras falsas e mal intencionadas nessa internet! Arr Maria!

Sim, mas voltando às palavras reais e bem intencionadas me pergunto: terão elas cumprido seu papel em nossas vidas? Mas que papel, hein?! E que vidas? Quantas delas, conscientes ou não, será que cabem num papel estêncil? E esse negócio de papel, ainda por cima estêncil, “É coisa dos tempos da onça!”, dirão alguns. E aqui me refiro à moeda ou à medida, e não ao bicho, que nada tem a ver com a colher.

E por falar na dita cuja, fico aqui pensando no papel da colher nas línguas, e lembro de uma expressão que escuto vez em quando aqui na Alemanha, e que tem a ver com a ideia de “passar a colher adiante”.

Quando se ouve dizer que “Fulano/a passou a colher adiante” – Pobre Fulano! Pobre Fulana! – significa que a criatura não está mais entre nós. E, claro, perguntando o que a morte tem a ver com a colher, fui dar uma olhada nas tantas palavras de um livro que tenho aqui em casa, um que traz histórias sobre a origem de certos ditos, e descobri que a colher dessa expressão em particular tem uma história curiosa.

É que houve uma época em que cada pessoa carregava consigo por toda a vida seus próprios utensílios, que eram coisas raras. Dentre eles, a própria colher. Quando morriam, o precioso objeto era passado adiante, ou seja: a colher recebia novo dono, dona ou done.

Para se ver que a colher era um tipo de coroa dos pobres: morreu, passou a coroa; bateu as botas, passou a colher. Ou será que só os ricos podiam ter colher e botas naquela época? Imagino que sim, já que ter certas coisas era e segue sendo sinal de status e os menos abastados comiam só com as mãos, isto é, sem talheres, e andavam descalços.

Se bem que o ato de comer tomando os alimentos com as mãos varia de cultura para cultura, porque em alguns lugares do mundo, ainda hoje, comer dessa maneira tem um significado nobre, sem falar que é mais ecológico. Quanto a andar descalço, prefiro não correr o risco de romantizar a desgraça, porque muitos andam descalços pelo mundo é por conta da cobiça desmedida dos que têm colher e botas.

Sim, mas e a outra colher que – dizem! – não se deve meter entre pessoas que brigam? A origem dessa colher aí eu desconheço, e me alegro em perceber que as pessoas da nossa época já entenderam que, no meio de dois que estão brigando, ainda mais se um deles for mais fraco, temos que nos meter sim, com ou sem colher, para evitar mortes.

Okay, depende muito de quem estiver brigando, pois em alguns casos, melhor mesmo é dar uma de coveiro de filmes de velho oeste – de Sergio Leone , por exemplo – e ficar só urubuservando*, pra ver qual das almas sebosas passa a colher primeiro.

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