terça-feira, 17 de maio de 2022

Crisálida: Completo, complexo e mais do que um romance policial

Publicado em 7 de fevereiro de 2022, às 10:45
Gabriel Barros Neres – jornalista.
Imagem fornecida pelo autor

O gênero do romance policial se tornou o meu maior interesse como leitor já faz alguns anos. São histórias rápidas e envolventes, contam com um detetive inteligente, uma reviravolta inesperada e, claro, algum crime a ser resolvido como um quebra-cabeças. Destacam-se nesse gênero autores como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza, além de inúmeros outros escritores nacionais e internacionais do passado e do presente.

Estava escolhendo minha próxima leitura do ano quando encontrei na loja Kindle um romance policial brasileiro que me chamou a atenção. Chamado Crisálida (Oito e Meio, 2018, 277 páginas), escrito por Andressa Tabaczinski, o livro alterna entre duas linhas narrativas: a primeira é a investigação criminal da filha de um político de Curitiba, que teve seu corpo encontrado sem vida um mês após seu desaparecimento repentino. E a segunda é sobre a vítima, Amélia Moura, narrada em primeira pessoa.

Amélia era filha de um político conservador de Curitiba, irmã de um médico cirurgião em ascensão, possuía um relacionamento distante com a mãe e era noiva de um empresário de uma empresa ecológica que estava prestes a fechar um contrato com a prefeitura. Mas, para a decepção da família, Amélia escolheu uma das profissões mais desvalorizadas do país: professora de Literatura. Em uma conversa ela até admite que este foi seu maior ato de rebeldia. Antes de desaparecer, Amélia havia rompido seu noivado e vinha de saídas misteriosas, não contando a ninguém para onde ia nem com quem saía.

No presente acompanhamos a delegada Ana Cervinski e o policial Júlio Bragatti, os dois responsáveis pela investigação. Até a delegada ser afastada ainda no início do caso por causa do polêmico arquivamento do desaparecimento de Amélia, mas também por causa da forma como conduzia os interrogatórios. Então quem matou Amélia Moura? E por quê? O que ela teria feito para receber esse destino tão trágico?

A escrita da autora possui muito dinamismo, é caprichada e sem excessos. O leitor se sente transportado para dentro da história, como se estivesse nos cenários de descrição precisa ou até mesmo se captasse os mesmos sentimentos dos personagens ao acompanharmos seus momentos mais reflexivos e pessoais. O início da investigação é burocrático e pode ser um incômodo para o leitor, por outro lado é algo realista e condizente com alguns fatos que acontecem no desenvolvimento da trama. A investigação fica mais instigante ao longo da narrativa, com revelações surpreendentes.

A obra aborda temas delicados e atuais, como violência, homossexualidade e homofobia e abusos, também apresentando muitas mensagens, como viver sob as expectativas de outras pessoas e as decepções que isso pode gerar, trazendo muita complexidade aos personagens e a seus respectivos dilemas e dramas.

Por fim, também tem a crisálida do título. Um detalhe interessante está na diagramação. A capa de alguns capítulos mostra uma lagarta saindo de sua crisálida até se tornar uma borboleta e isso combina tanto com a jornada de autodescoberta pela qual Amélia Moura passa quanto com a investigação, a crisálida se torna uma borboleta à medida que o caso caminha para seu desfecho.

Crisálida é uma obra completa, complexa e consegue ser mais do que apenas um romance policial, sendo minha melhor leitura até aqui em 2022. (O e-book Crisálida pode ser encontrado na loja Kindle da Amazon e também está disponível no Kindle Unlimited)

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