quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A árvore de Natal enfeitada de pequi da aldeia São José

Publicado em 4 de janeiro de 2022, às 18:58
Fabio Cardias – Psicólogo, Doutor em Educação e professor do Curso de Enfermagem do CCSST (Ufma Imperatriz).
Imagem: Internet

Então é Natal! Repetem todos na entrada de dezembro. Jargão popularizado com a letra de Cláudio Rabello, na bela voz da cantora Simone. Serve para pontuar a entrada no último mês do ano, indica o fim de ciclo solar próximo e pauta a festividade maior do cristianismo, disseminado pelo catolicismo romano, o Natal. De herança pagã, o suposto mês e dia de nascimento de Jesus Cristo coincide com o inverno do Oriente Médio, o que estaria em desacordo com “os pastores estariam no campo com as ovelhas em seu nascimento” bíblico, propício pra primavera ou verão, não no inverno. Daí, por exemplo, assembleianos e prebisterianos não o comemoram como os católicos.

Lidos textos recentes de amigos, alguns lembram docilmente o festejo-ritual-ceia com os olhos de encantamento da infância: a espera dos presentes entre amados mães, pais e avós ainda vivos, comes e bebes raros da época, verdadeiras iguarias e sabores raros ao longo do ano. Hum, que delícia de lembrar, deu água na boca. Lembro de comer nozes, panetone caseiro, peru, bolinho de bacalhau e rabanada, por exemplo, somente nessa época. Outros lembram como a figura de Papai Noel, fora da mitologia cristã, roubou a cena desde a coca-cola, em 1931. Papai Noel Velho Batuta é a música de Garotos Podres, reafirmando o encantamento infantil consumista com o presente merecido, se ela se comportou ou não durante o ciclo anual, não mais por ser uma pessoa amada entre os seus, mesmo com seus defeitos, bem como o consumismo adulto da sociedade de consumo, da sociedade do espetáculo, da sociedade líquida, etc. Se algumas crianças ganham celulares e i-phones de dez mil reais, outras ganham uma boneca ou um carrinho de plástico em doações, comida talvez, marcando bem nosso fracasso de divisão social nada cristão, uns têm demais e outros têm de menos.

Eu fugi do cristianismo devido aos cristãos ao meu redor, pelo menos, me parecerem fracos, falsos, não confiáveis, dissimulados. Foi uma percepção, decisão e escolha precoce aos quinze anos de idade. Primeiro, familiares católicos que vivem julgando os outros ao redor e nunca melhoraram a si mesmos, ainda que portadores de virtudes, foram os disparadores de tal suspeita de que há lacunas profundas entre o que se fala, o que se acredita e o que se milita e o que se faz, as atitudes que dizem ao final.

A fé em Cristo permanece como aos mestres de sabedoria que precisam sempre ser atualizados em suas tradições múltiplas. Isso ficou em mim, mas como leitor leigo da bíblia e observador das comunidades cristãs. Só muito depois entendi que as pessoas precisam ter um ponto de apoio para suportarem sofrimentos, e passei a atacar menos e até a visitá-las e ouvi-las. Em especial as pessoas mais simples, em condições materiais ruins, necessitados, senhoras e senhores bem intencionadas, de coração grande e mesmo os que se contradizem na sua fé necessitam sempre voltar ao ensinamento cristão, pois sozinhos não conseguem.

Este ano de 2021, passamos eu e minha companheira, a mãe dela e a neta juntos, na aldeia São José, da Terra Indígena Krikatí, em Montes Altos, região tocantina. Lá observo como as pessoas indígenas foram colonizadas pelo pensamento cristão popular, outros não. Há correlações interessantes de Jesus com Alquiré, um herói mitológico como Cristo, fundador da cultura Timbira. Por outro lado, São José me persegue, aglutinando várias sincronicidades: nome da aldeia que frequento, meu segundo nome de batismo, homenageando o padroeiro do Maranhão, homenagem da minha avó a São José de Ribamar, e mesmo autores de referência principal são Josés. O pai amoroso José sou eu com Raoní, meu filhote.

E, também, a árvore de Natal na aldeia não é um pinheiro europeu, será um pé de pequi, e os pequis as bolas de enfeite. O pequi começa a cair nesse inverno amazônico, marcando um ciclo de renascimento do pequizeiro e seu cheiro característico, seja embaixo das árvores, seja nas geladeiras locais. Em uma lenda Timbira, o pequizeiro surgiu de uma fogueira a queimar o corpo de um jacaré que era amante das índias que não gostavam do marido em comum. O pequi é, portanto, fruto de um assassinato, mas que gerará a flor e o fruto apreciado pelos tocantinos nessa época: no arroz, na carne ou comido até o caroço, cuidado com o seu letal espinho.

Então, é isso. Tudo acima aponta para o mais importante desse festejo importado que explode em sentindo semântico, a ambivalência da vida em si: tudo converge pro ambíguo, para o bivalente, o dual, portanto, para o renascer, pro rever a vida, reavaliar o ano que finda, o ciclo que termina e anuncia o recomeço do outro. Assim, o pequi cai todo ano e isso marca uma nova oportunidade de cada um reler seu coração pequizeiro espinhento, limpá-lo, prepará-lo, cuidar para mais um ciclo que nasce. Então, se isso compreendido e aprofundado, aí sim é Natal!

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