terça-feira, 25 de janeiro de 2022

De contos, causos e oralidades – Para dar o pira

Publicado em 27 de dezembro de 2021, às 9:08
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Unsplash

Não tenho certeza de muitas coisas na vida, mas das poucas que tenho, uma é de que eu nunca teria me dado conta de certos detalhes da nossa língua, se eu não tivesse nunca dado aulas de português e de espanhol para estrangeiros.

Uma prova disso está no título desse textículo* – e se não é a primeira vez que você lê um dos meus textos nesta coluna, já deve ter entendido que o asterisco está aqui para indicar que essa forma não se encontra nos dicionários, mas que eu a utilizo porque amo de paixão brincar com as línguas.

E esse textículo* nada tem a ver com as bolas ou com o tradicional saco, que não é bem aquele que um tal “bom velhinho” carrega às costas no dia 24 de dezembro, também conhecida como “Véspera de Natal”. “Véspera” aliás, que quer dizer “dia imediatamente anterior àquele que se trata”, que aqui não trato por falta de espaço, pois esse é certamente outro tipo de palavra que vale a pena fuçar no significado, mas deixa pra lá!

Ficou longa a frase, né? Não tem problema! É só seguir as vírgulas que elas mostram as pausas onde se pode respirar.

Sim, volto ao pirar-se, expressão que me traz hoje aqui. Assistindo a um canal no youtube dedicado a curiosidades em várias línguas românicas – aquelas que se ergueram sobre as ruínas do latim -, descobri que na fala coloquial espanhola existe a expressão pirarse, e que quando uma pessoa diz “me piro”, na verdade ela quer dizer que se está indo a algum lugar, como diríamos num português já quase arcaico: “Adeus, que já me vou!”.

De acordo com los chicos e com as raparigas ou le ragazze do vídeo, o tal do pirarse vem do caló, a língua do povo cigano, e significa “fuga”. Daí que se alguém lhe disser na Espanha ou em Portugal: “Me piro”, na verdade está querendo dizer que “se vai” – e que vá pela sombra!

A gente também pode entender que a pessoa “vai capar o gato”, o que já é uma metáfora para o pirar-se e é quase impossível de se explicar para uma pessoa estrangeira, sem que ela pense que amamos a tortura de animais.

Daí me veio à lembrança quantas vezes, no meu querido Maranhão, ouvi e disse: “Vou dar o pira daqui!” ou “Vou é capar o gato!” com a mesma inocência e certeza de “Me vou, mas é pra já!”.

Pois é! E como este é o último textículo* do ano desta coluna, espero que a pandemia finalmente dê o pira das nossas vidas, para que possamos deixar de pirar simplesmente, que quando é sem o “se”, ou seja, quando não é reflexivo, significa ficar louco, pirar na batatinha e outras variações, que deixo para outro textiúnculo*, que também não é furúnculo, e nem vou mexer nesse angu, pelo menos não neste ano.

No próximo ano a gente continua esse papo, pois ainda tem o se saia, muito usado na Bahia, que é o que vamos dizer com gosto no dia 31 de dezembro à meia-noitinha:

2021, se saia! Que venha 2022! E nos traga saúde!

Tim-tim!

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