terça-feira, 30 de novembro de 2021

AS NOVE IMORTAIS DA ACADEMIA MARANHENSE DE LETRAS

Publicado em 26 de outubro de 2021, às 18:32
José Neres – Professor. Membro da AML, da Sobrames e da ALL
Imagem: Ufma

Fundada em 1908, mais exatamente no dia 10 de agosto, a Academia Maranhense de Letras, também conhecida como Casa de Antônio Lobo, é uma das mais antigas agremiações literárias ainda em funcionamento no Brasil. Sua lista de acadêmicos conta, entre fundadores de cadeiras e sucessores, com mais de uma centena e meia de membros, dos quais ao longo da mais que centenária história da AML, apenas nove são mulheres. Mulheres que trazem a força das palavras em suas mãos e que muito contribuíram e têm contribuído para a cultura não apenas do Estado, mas de todo o País.

Mas quem são essas intelectuais que têm assento eterno na Casa de Antônio Lobo? O que elas produzem ou produziram? Quais as características básicas de suas obras? É isso que será visto, de modo bastante resumindo, nos parágrafos a seguir.

Em abril de 1943, de braços abertos, a Academia Maranhense de Letras recebeu a primeira mulher a ingressar em seus quadros de imortalidade. Tratava-se da professora, pesquisadora, contista e poetisa Laura Rosa (1884-1976), que foi fundadora da Cadeira n° 26, patroneada por Antônio Lobo. Escritora de grande sensibilidade poética, Laura Rosa, que assinava seus textos também como pseudônimo de Violeta sabia trabalhar com as palavras, tanto na escrita quanto na oralidade e deixou trabalhos importantes em diversos campos do saber. Sua produção em verso ficou dispersa em jornais, mas parte significativa dela foi reunida e publicada pela professora Diomar Motta em 2016. No ano seguinte, a mesma pesquisadora trouxe novamente à luz o estudo As Crianças, no qual Laura Rosa fez um apanhado geral da educação infantil em diversas partes do mundo.

Outra escritora que também fundou uma cadeira na AML foi polígrafa itapecuruense Mariana Luz (1879-1960), que ocupou a cadeira 32, patroneada por Gentil Homem de Almeida Braga. Injustamente esquecida durante várias décadas, a obra de Mariana Luz começou a ser resgatada graças aos esforços de pesquisadores como Jucey Santana, Inaldo Lisboa e, mais recentemente, Gabriela Santana, que além de escrever artigos sobre a a produção intelectual dessa autora, reuniu os versos da escritora em uma bem elaborada edição crítica. A poesia de Mariana Luz parece ser tirada do próprio cotidiano e trabalhada com a graciosidade de quem conhecia a arte de transformar dores e vivências em poesia repleta de imagens, ritmos e alegorias. Além de poetisa de grande fôlego, a autora de Murmúrios também enveredou por outros gêneros literários com grande desenvoltura.

Prosadora bastante versátil, Conceição Neves Aboud (1925-2005) foi eleita em 1955 para a cadeira n° 20 da Instituição. Escritora bastante laureada, a autora de Teias do Tempo, Grades e Azulejos e Rio Vivo emocionava os leitores com enredos bens construídos, carregados de referências históricas e com personagens que pareciam seres comuns que poderiam ser encontrados em qualquer lugar, mas que traziam dentro de si inúmeros mistérios e uma imensa carga de humanidade. Alguns de seus trabalhos foram publicados em revistas de grande circulação na época e agradavam tanto os críticos quanto os leitores em geral. Infelizmente seus livros hoje são escassos e são encontrados apenas em bibliotecas e em acervos particulares.

A professora, advogada, contista e poetisa Dagmar Destêrro e Silva (1925-2004) foi empossada na cadeira nº 24 na metade do ano de 1974. Trata-se de uma escritora que soube trabalhar a prosa e os versos com talento similar. Em suas narrativas os aspectos do cotidiano ganham uma dimensão de novidade e suas personagens parecem estar sempre em conflito consigo mesmas. Assim como fez Mariana Luz, Dagmar Destêrro também parecia arrancar das entranhas das próprias vivências o combustível com o qual dava vida a seus poemas, que mostram os problemas e as adversidades do dia a dia, mas também buscam mostrar caminhos para a superação dos obstáculos. Sua poesia é agradável, sonora e cheia de boas reflexões.

Em 1979 foi a vez da advogada, diplomata, prosadora e poetisa Lucy Teixeira (1922-2004) assumir a cadeira nº 7 da AML. Ela fez parte do movimento da Movelaria Guanabara, que marca um momento de grandes mudanças nos modos de ver a poesia moderna em terras maranhenses, e as ideias de Lucy Teixeira provavelmente influenciaram a produção literária de autores como Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, José Sarney e Odylo Costa, filho. Seu romance Um destino Provisório (2001) foi elogiado por muitos críticos, inclusive por Antonio Candido, que disse haver apreciado “a liberdade criadora” da escritora maranhense, que já havia publicado Elegia Fundamental (1962), Palimpsesto (1978), Nos tempos dos Alamares & Outros Sortilégios (1999) e a peça teatral Quem Beija o Leão. Trata-se de uma escritora que precisa ser redescoberta e novamente estudada, pois tem muito apresentar em suas obras.

Nos dias finais de 2001, a professora, ensaísta, cronista e pesquisadora Ceres Costa Fernandes foi eleita para a cadeira nº 39, cujo patrono é o orador, advogado e jurista Gomes de Castro. Dona de um estilo elegante no qual o cotidiano ganha vida em forma de palavras que reconstroem algo que nem sempre e perceptível pelas pessoas em geral, Ceres Costa Fernandes publicou crônicas em jornais, com aceitação imediata por parte dos leitores, que começaram a esperar por seus próximos textos. Parte desses trabalhos foi reunido no livro O Último Pecado Capital & outras Histórias. Além de exímia cronista, a acadêmica também desenvolveu e publicou estudos sobre a literatura na Idade Média, sobre o Surrealismo e foi uma das primeiras intelectuais no Brasil a se dedicar aos estudos da obra de José Saramago, o que lhe rendeu uma dissertação de mestrado que foi vertida para livro e já teve várias edições esgotadas.

No ano seguinte, foi eleita para a cadeira nº 6 a filósofa e poetisa Laura Amélia Damous, escritora que sempre investiu em um estilo minimalista em que as imagens poéticas se escondem por trás de poemas curtos, porém carregados de essência. A poesia de Laura Amélia foi elogiada por estudiosos da literatura como Assis Brasil, Nelly Novaes Coelho, Nauro Machado, Carlos Cunha e Clóvis Ramos, entre outros. Em seus poemas, é possível o leitor encontrar algo que vai além de jogos de palavras ou de giros sintáticos incomuns. Ela encastoa em cada verso o desejo de dizer o máximo possível dentro de uma estrutura mínima, filosófica e poética ao mesmo tempo. Vale a apenas ler os livros de Laura Amélia. Eles trazem a certeza de  muitos aprendizados e de boas reflexões.

Quase no final de 2005, como o falecimento da escritora Conceição Aboud, a cadeira nº 20 da AML entrou em período de vacância. Então no ano seguinte, a professora Universitária, ensaísta e poetisa Sonia Almeida decidiu concorrer à vaga. Foi eleita e tomou posse em agosto de 2006. Ao ingressar na Academia, Sonia Almeida já trazia consigo a experiência de anos de sala de aula e de convívio com as palavras escritas. Publicou seu primeiro livro Penumbra, em 1992, e a partir daí, vieram a público vários trabalhos, como Palavra Cadente, Há Fogo no Jogo e O Poema da Diferença, além de estudos teóricos voltados para a o universo universitário e análise de obras. A poesia de Sonia Almeida é repleta de referências a suas leituras e a seu trabalho com a linguagem e é carregada de metáforas e de alegorias geralmente eivadas de uma visão existencialista.

A mais recente mulher a entrar para a Academia Maranhense de Letras foi a historiadora, poetisa e promotora de justiça Ana Luiza Almeida Ferro, que, desde 2017, ocupa a cadeira nº 12 da Instituição. Detentora de diversos prêmios locais, nacionais e internacionais, a escritora publica tanto obras de cunho jurídico, como é o caso de O Tribunal de Nuremberg: Precedentes, características e legado; trabalhos voltados para historiografia, como 1612: Os Papagaios Amarelos na Ilha do Maranhão e a Fundação de São Luís; e também se dedica com afinco à poesia e à crônica, como pode ser visto em Quando (2008), O Náufrago e a Linha do Horizonte (2012) e Folhas Ludovicenses (2019), sendo este último uma coletânea de crônicas e artigos anteriormente publicados em jornais. A poesia de Ana Luiza é marcada pela leveza poética com que ela trabalha temas de grande impacto individual e/ou social.

As escritoras da Academia Maranhense de Letras são talentosas, têm uma boa produção intelectual, e, individualmente ou em seu conjunto, podem servir como base para inúmeros estudos sobre a nossa literatura de ontem e de hoje. Merecem nossos aplausos!

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