sexta-feira, 22 de outubro de 2021

De contos, causos e oralidades – Cassandras, salve!

Publicado em 14 de setembro de 2021, às 14:57
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Jornal do Oeste

Quanto mais leio poesia sou levada a pensar que quem faz poemas tem um quê de Cassandra, sacerdotisa que recebeu de Apolo o poder da adivinhação. Cassandra era filha de Príamo, rei de Tróia, e irmã de Páris, aquele lá que deu tanta atenção à bela Helena, esposa de Menelau, no momento em que este, com todo o empenho, só pensava em guerras e negócios.

Daí que o affair entre Páris e Helena não teria acontecido se Menelau fosse um marido mais presente, não é mesmo? E não sou só eu quem diz isso, algo parecido foi dito por Ovídio há muito tempo, em seu famoso manual A Arte de Amar, um texto bastante ousado para sua época, e que muitos que o leem ou leram em outras épocas tendem a interpretá-lo como um tipo de manual de fingimento. Porém, sabendo-se como funcionava a sociedade romana do tempo em que Ovídio viveu e escreveu o seu texto, outras leituras são possíveis, algumas bastante positivas até.

Eu gosto muito de mitologia. E gosto muito de poesia também. Não consigo bem separar as duas coisas: poesia e prosa. Bem como nunca consegui separar direito música e matemática, física e pensamento filosófico. Não é a primeira vez que escrevo nesta coluna que quando não se consegue mais escrever ensaios sobre determinados assuntos, recorre-se à poesia como forma de expressão, seja a poesia que se apresenta em versos ou aquela que se mostra como qualquer outra manifestação artística, como a pintura, por exemplo.

E como amante de poesia que sou, embora não seja estudiosa do assunto, muito me alegro em saber da poesia brasileira contemporânea. Um amigo me mandou de presente, há bastante tempo já, o livro O pequeno poeta, de Neurivan Sousa, um livro de poemas escrito para crianças. Neurivan começa o livro dizendo que viu a poesia brilhar nos olhos da filha, antes que ela virasse versos e saltasse para o papel. Isso, isso! A poesia sempre se encontra fora do papel. É preciso saber enxergá-la e traduzi-la para outros códigos.

Neste livro, há um poema chamado O menino do skate, que graças à jovem maranhense Fadinha (Rayssa Leal) se pode atualizar para Crianças do skate, já que as meninas também podem ser skatistas e até ganhar medalhas de prata, ouro e bronze nas olimpíadas. Isso, isso! O tempo em que skate e tantas outras coisas era só para meninos graças a Deus já passou, embora sempre haja aqueles que insistem em manter vivos os velhos preconceitos e papéis de gênero. Porém, o tempo é poderoso: é como um rio, ninguém o prende, ninguém o segura. Os que clamam pela volta do passado não passarão. E nós, que tentamos viver no presente e garantir um futuro mais igualitário para nossos filhos, filhas e filhes seguimos lutando contra as represas colocadas em nosso percurso. Como diria Belchior, na inesquecível voz da Pimentinha: “o passado é uma roupa não nos serve mais” e “o novo sempre vem”!

Daí que, como disse o poeta maranhense Antonio Sodré em seu poema Entremeio, somos uma geração que se encontra entre “o quase e o possível” ou “entre o agora o ainda não”, frase que já foi citada tantas vezes que nem me arrisco a correr atrás da autoria original.

E para corroborar minha visão de que a poesia é um tipo de profecia, veja esse poema de Sodré, publicado em 2015:

CAOSTIFICAÇÃO

No exercício do caos,

não nos causa surpresa o estranho

a admiração está no espanto…

Já não são estranhos os movimentos heterogêneos,

rotações que se findam nos mesmos caminhos

de seres iguais e distantes pela indiferença

Não nos interroga mais a dúvida

da miséria capitalizada,

do crime banalizado,

da fome que se alimenta…

No exercício do caos,

discursos ecoam em vazio

fé e litania têm o mesmo aspecto

a loucura torna-se imunidade,

forma mais serena e sórdida

de esquecimento…

Na crueza dessa realidade,

o tempo é desigual aos homens*

mas não há fortes nem débeis

todos se ferem um dia, caostificados

nessa faca só lâmina

* aos seres humanos

Não é o que eu digo? Se há como escapar dessa caostificação, só a poesia nos pode mostrar o caminho. Poetas, vida longa! Salve!

Antonio Sodré, Poemas Avulsos, Editora Multifoco, 2015.

Neurivan Sousa, O pequeno poeta, Editora Fábrica dos Livros, 2014.

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