terça-feira, 26 de outubro de 2021

MEU GRANDE AMIGO

Publicado em 8 de agosto de 2021, às 10:26
Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor
Imagem: Freepik

A imagem mais distante que eu tenho do meu pai é de um sujeito muito pouco afeito a falatórios, principalmente com a família. Lembro muito dele trabalhando no seu comércio (quitanda, como se chamava), desde a manhã cedo até a noite, para poder criar os seus quatro filhos. A gente ficava por lá, ajudando, fazendo uma coisa ou outra, mas sem conversar muito com ele. Nos momentos em que estávamos todos reunidos, ele falava pouco.

Mas aí, minha mãe morreu. E tudo mudou.

A primeira mudança, após o impacto da morte dela, foi a tentativa de ele se afastar dos filhos. Queria vender tudo e se mudar para um interior distante, isolado, de difícil acesso. Queria fugir do contato direto com os filhos e as filhas. Nós, a sua família – a que restou, após a hecatombe que foi a partida rápida de mamãe.

Por alguma razão, esse projeto não deu certo. E aí, veio a segunda mudança.

Ao invés de se isolar, meu pai começou a se abrir com os filhos – principalmente, comigo. Começamos, então, a estabelecer uma relação que ia além dos papéis sociais de pai e filho. Meu pai se tornou meu amigo.

Aquele amigo de confidências. Aquele amigo para quem se pede um conselho. Aquele amigo para quem se pede uma opinião e de quem se recebe uma opinião, de bom grado.  

E aquele amigo, que normalmente se tem na rua, eu encontrei em casa. Meu pai se tornou meu grande amigo.

Não parece, mas sou uma pessoa de muito poucos amigos. A despeito de ter redes sociais amplas e bem frequentadas; a despeito de interagir, todos os dias, com centenas de pessoas; a despeito de ser uma pessoa falante e, principalmente, ouvinte; a despeito de parecer ter muitos amigos, eu não os tenho. Tenho muitos colegas – homens, mulheres, jovens, adultos, idosos. Amigos, amigos mesmo, talvez eu conte nos dedos de uma das mãos.

E um dos dedos é meu pai. É a ele que recorro, nos poucos momentos em que estamos juntos, para contar minhas decisões, meus planos, minhas inquietudes. Ele sempre tem um ouvido atento e uma palavra sincera e certa. Às vezes, é certo, eu não ouço (ou não considero) o que ele diz. Mas o simples fato de ouvi-lo dizer já é suficiente para consolidar nossa amizade.

Minha mãe, certamente, estaria feliz, se visse como eu me transformei num amigo para meu pai – e vice-versa. Como eu e ele somos ligados por laços que transcendem o cordão umbilical ou a tipagem sanguínea ou o sobrenome do registro de nascimento. Como nos amamos, nos respeitamos e nos consideramos como dois grandes amigos.

E aquele pai provedor, digno apenas de reverência, de quem eu tinha, sobretudo, um grande temor, ficou no passado. E, no lugar dele, entrou uma figura amorosa, em quem eu confio para me achegar, me aproximar e dizer o que eu sinto, às vezes só para dizer mesmo. Ou para ouvir o que ele tem a dizer.

Meu pai, meu grande amigo.

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