sexta-feira, 22 de outubro de 2021

De contos, causos e oralidades – Tempo, tempo, tempos

Publicado em 19 de junho de 2021, às 10:27
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Freepik

Alguma vez já parou para pensar sobre a palavra tempo e seus significados? Na Alemanha, por exemplo, Tempo é o nome de uma marca muito famosa de lenços de papel. É aquele tipo de uso da linguagem que leva a pessoa a dizer que quer Nutella em vez de dizer que quer creme de avelã, ou que quer Gilete em lugar de dizer que procura uma lâmina de barbear. Aliás, num lugar em que não há pés de avelã, se perguntarmos a uma pessoa se ela quer creme de avelã, é muito provável que ela diga: “Hã?” porque nem sabe o que é isso.

Então, na Alemanha, se uma pessoa lhe pergunta: “Você tem tempo?” ela não quer saber se você tem disponibilidade para fazer alguma coisa naquele momento e, sim, se você tem um lenço de papel para dar a ela. E aqui o verbo é este mesmo: dar, dado que esse tipo de coisa, bem como papel higiênico, não se empresta, porque aquilo que a gente empresta é porque espera receber de volta e Deus nos livre de receber de volta papel higiênico ou lenço de papel usados, não é? Ainda mais em tempos de Corona… tsc, tsc, tsc

Sim, mas voltando ao “tempo”, que não é o mesmo que voltar no tempo, coisa que só se pode fazer com ajuda da memória, a palavra “tempo” também se refere à época reservada para alguma coisa, como tempo de plantar e tempo de colher, ou ao conjunto das condições meteorológicas, como o tempo de agora nesta parte do hemisfério norte, onde estou a escrever este texto, que era para ser tempo de sol, dado que estamos no final da primavera, mas que quase todos os dias… chove! Paciência!

Não reclamo, porque há tempo de chuva e há tempo de seca, e no tempo da seca a gente costuma se arrepender de ter reclamado do tempo da chuva, mas aí já é tarde e “a Inês é morta” e um dia eu volto aqui para escrever sobre quem foi essa Inês, se eu tiver oportunidade, claro, que também tem a ver com ter tempo. Aliás, pode alguém de fato ter tempo? Ou só nos é dado, digo: permitido, ter a impressão de que temos controle sobre algo que na verdade nos controla? Não sei, pensemos!

Aliás, para pensar sobre o tempo sinto que é necessário sair um pouco – ou muito – do nosso próprio tempo e espaço, ou melhor: do nosso tempo e cercado. Porque quando a gente sai, principalmente do nosso cercado, a gente ganha um troço chamado distanciamento, que é o que nos dá perspectiva e discernimento e nos ajuda a enxergar melhor – as coisas.

Tenho ainda tempo para falar de algumas notas? Dó-ré-mi-fá-sol-lá… Sim!  Já ia me esquecendo: tempo também tem lugar no mundo da música. E aí, querides, haja fôlego para sustentar a nota pela quantidade de tempo que o regente ou a regente achar que deve. Tempos bons aqueles que eu cantava em corais…

Tempo também pode se referir aos tempos verbais: presente, passado e futuro. O Brasil, por exemplo, até há alguns anos era um país admirado no mundo inteiro. Hoje, por conta do eficiente plano de desgoverno, infelizmente não é mais, e precisará de muito tempo para que volte a ser – respeitado.

Por último, o tempo também se refere ao momento temporal em que nos encontramos: o hoje, que amanhã se espera que vire ontem, e o agora, que ainda não é depois e pode ser que nunca se torne, pelo menos não para o sujeito das orações. Portanto, agarre-se à única coisa que você pode, criatura: ao presente, que não tem esse nome à toa, pois de fato é um regalo, que em espanhol significa algo dado, mas que em inglês é “gift”, que em alemão é, como todo falso amigo, um troço venenoso. Daí que o presente pode ser visto como um”regalo” perigoso: uma bomba relógio em nossas mãos, bomba geradora de futuros, ou não.

Tempo me sobra ainda para uma última curiosidade: quando você pensa no tempo, no que é que você pensa? Você pensa numa régua, num fluxo, num rio, num círculo, numa espiral, numa corda, noutra coisa, você não pensa em nada? No que você pensa? Não tem tempo para pensar sobre isso? Pois arrume! Pensar sobre o tempo, ao que parece, nos ajuda a entender melhor o tempo que nos foi designado. Dê um tempo em todo o resto, tire um tempo para perder! Aliás, tempo se perde? Pode ser…

Uma resposta em “De contos, causos e oralidades – Tempo, tempo, tempos”

Um texto muito bem elaborado, recheado de conhecimentos semânticos sobre diferentes idiomas e culturas. Inteligente, por demais; além, da riqueza cultural da autora, inclusive, sob a ótica bíblica, quando cita passagens do livro do Eclesiastes. Robusteci-me, bastante, pelo Tempo que precisei para lê-lo. Infelizmente, hoje, a maioria da população, inclusive a acadêmica, não gosta de usufruir do tempo que dispõe, com uma boa leitura. É, tudo liquefeito, ou seja, nada consistente na maioria das vezes. Lamentavelmente, até o afeto vem sendo processado, ou diluído, por nossa pressa, em nome, da falta de tempo. Obrigado, confrade- Marcos!

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