domingo, 17 de outubro de 2021

“Ela é louca”: o hábito de associar mau- caratismo com transtorno mental

Publicado em 10 de junho de 2021, às 18:17
Hyana Reis – Jornalista
Imagem: Jornal DR1

“Nossa essa pessoa é maluca”, “é bipolar”, “é doida”. Atire a primeira pedra quem nunca soltou uma dessas frases ao se deparar com alguma atitude que considerou errada, ou fora de proporção. Isso porque vivemos em uma sociedade que justifica atitudes condenáveis e mau-caratismo com transtornos e doenças mentais. Mas por que essa associação é feita com tanta frequência e naturalidade?

Há uma tendência de imaginar que quem tem doença mental está sempre pendendo para o mau comportamento. Assim, acaba-se naturalizando situações reais em que uma pessoa branca, rica e privilegiada diz ter sido grossa e mal educada com funcionários negros por sofrer de transtorno bipolar e ansiedade. Ou frases como a do youtuber Felipe Neto, que no Twitter disse que ter uma doença mental é pré-requisito para fazer parte do governo federal.

Como uma pessoa que faz tratamento e luta contra um transtorno, posso afirmar com toda a certeza: não existe uma doença mental que te faça racista, homofóbico ou machista. A ansiedade não te torna mal-educado, a depressão não te faz mau-caráter, o transtorno bipolar não te torna um criminoso.

Todos os dias eu luto para ser uma pessoa ética e gentil, e para seguir meus princípios. Por isso, é extremamente doloroso quando se justifica uma atitude condenável com frases: “essa pessoa tem transtorno, só pode ser doida”, e que isso seja aceito e normalizado com tamanha facilidade. Esse tipo de atitude tem um nome: psicofobia, o preconceito contra pessoas que sofrem de transtornos e doenças mentais.

Lembro de assistir perplexa ao Big Brother Brasil e ver tantas pessoas justificando a tortura psicológica praticada por alguns participantes com um transtorno: “ela com certeza tem problema mental”. É possível ou não que esse seja o caso, e que tal atitude seja a confirmação de que é necessário se buscar ajuda profissional, mas jamais deve ser aceito como a justificativa para tal comportamento. É preciso mais que nunca desassociar quem é cruel de quem é doente.

Também precisamos parar de naturalizar atitudes “comuns” do dia-a-dia com transtornos reais. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi: “eu sou bipolar” para justificar uma mudança de humor. Frases como esta mostram o quanto ainda somos carentes de informações de qualidade e alheios às dores e à luta de quem lida com essas doenças.

“Mas você nem parece ter algum transtorno”, dizem as pessoas de forma elogiosa quando sabem do meu diagnóstico. O que só reforça a ideia estigmatizada de que quem tem doença mental teoricamente se comportaria de forma assustadora ou “fora do normal” o tempo todo. O que seria um elogio, na verdade, é uma agressão.

Já não basta a luta contra a doença, é preciso lidar ainda com todo o preconceito e a vergonha que vêm junto a alguém que já não está saudável mentalmente. Não há vergonha em ter doenças como diabetes, ou hipertensão. Ninguém diz para você levantar da cama e simplesmente deixar de ficar gripada, ou pensar positivo que um câncer vai se curar sozinho.

Então por que devemos nos envergonhar de possuir transtornos psicológicos como se fossemos os culpados de tê-los? Está na hora de mudar essa realidade, e saber que quem deve se envergonhar não é quem luta contra a doença mental, e sim aqueles que disparam preconceito contra elas todos os dias.

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