terça-feira, 26 de outubro de 2021

De contos, causos e oralidades – De roupa suja e do São Nunca

Publicado em 4 de junho de 2021, às 10:25
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Fantasia Wiki-Fandom

Dizem que para saber a idade de uma pessoa basta observar as expressões que ela usa. Se é isso mesmo, sei não, só sei que algumas expressões surgem e desaparecem ao longo do tempo, enquanto outras seguem em uso e conservam o sentido com que vieram ao mundo.

Realmente, seria muito estranho um jovem chegar em casa nos dias contemporâneos dizendo que passara a tarde fazendo a corte ou cortejando a filha de Fulano ou Sicrano. Tais expressões não são usuais nem mesmo em lugares nos quais ainda existe monarquia ou os resquícios de uma corte, como por exemplo países como Espanha e Inglaterra.

Além do mais, em nosso século, definitivamente não há espaço para cortesias, e as notícias nos mostram, todos os dias, que os ânimos estão muito mais para esquartejar do que para cortejar pessoas, ainda mais se estas pertencem à categoria de “corpos feminizados”, isto é, aqueles que estão mais sujeitos à violência por serem vistos como inferiores e sem valor, ou simplesmente por serem corpos que não podem se defender. E nesta categoria cabe um saco de gente: mulheres, crianças, pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, grupos indígenas, quilombolas, pessoas em situação de rua e até mesmo os animais, que não podem se defender dos maus tratos que recebem dos humanos. Aí estão as taxas de homicídios para confirmar as tragédias por trás desses dados.

Sim, mas voltando ao caso das línguas, certas expressões já desembarcaram do trem da história. Outras, entretanto, seguem firme e fortes, como é o caso das que aqui nos trazem: a lavagem da roupa suja e o Dia de São Nunca, que aliás não é o São Brás, nem o São Longuinho ou Longino, o padroeiro das coisas perdidas. E devo confessar que até eu começar a escrever este texto, eu nem sabia que o tal Longuinho de fato havia existido. Mas existiu. São Google me disse que na Basílica de São Pedro, em Roma, há uma imagem dele feita por Bernini, e em Portugal há também uma estátua com o mesmo nome. Obrigada, São Google, por me ajudar a achar o que eu preciso, mesmo sabendo que, para isso, todos os passos que dou ficam gravados em seus arquivos. E dos arquivos de São Google ninguém escapa! Mas quem foi mesmo esse São Longuinho? Dizem que foi o soldado romano que perfurou Jesus com a lança e, tendo sido tocado pelo sangue jorrado, se converteu ao cristianismo e mais tarde virou santo.

Pois é, mas voltando ao santo deste texto, se sabe que o Dia de São Nunca foi criado para se referir a coisas que nunca acontecerão, mas se São Nunca até nos dias de hoje é usado, é porque em algum momento na História esse dia passou a ser contado, e é a essa origem que quero me reportar.

Se sabe que os calendários são coisa muito antiga e passaram por várias modificações até chegarem ao formato que nos permite dizer que hoje é “29 de fevereiro”, se o ano é bissexto ou “1° de abril”, por exemplo, que é o Dia da Mentira. Verdade! E tudo começou com a observação dos corpos celestes, principalmente a Lua, e muito provavelmente essas observações foram feitas por pessoas que tinham paciência e um útero, já que as do sexo masculino não têm ciclo menstrual e, consequentemente, não têm relógio natural para orientar-se. Daí que se hoje temos pessoas, calendários, agricultura e todo o resto, tudo isso devemos às mulheres, certo?

Em algum momento da História, lá pela Idade Média, não se contava os dias usando números, mas a cada um se atribuía um nome de santo ou santa, se do pau oco ou não, aí já é história para outro momento. O fato é que existia um santo ou santa para cada dia, e quando as pessoas queriam ser irônicas e se referir a um dia que não existia elas usavam a expressão Dia de São Nunca, que é uma expressão tão eficaz que segue viva em vários lugares do mundo, e há quem diga que o Dia de São Nunca é 30 de fevereiro.

Na Alemanha, por exemplo, São Nunca é conhecido como “Sankt-Nimmerleins”, algo que se pronuncia mais ou menos como sankt nimeláis, e em italiano é o “San Mai”, já que san é santo e mai é nunca, o que me faz pensar num novo nome para ele: São Ni Mai Nunca, ou vulgo Jamé!

Há calendários que ainda conservam a informação do nome do santo ou santa do dia, tanto que em vários lugares do mundo, sobretudo na Espanha, as pessoas recebem o nome do santo ou da santa do dia em que nasceram, e em lugar de comemorar o aniversário, comemoram o dia do seu santo.

Sim, mas e a roupa suja? É simples: contam que na Idade Média, em cada povoado, existia um lugar onde as mulheres se reuniam para lavar as roupas. Era um tipo de lavanderia pública. No povoado europeu em que vivo, um que tem mais de 900 anos, ainda hoje existe o prédio e a fonte onde um dia funcionou uma dessas lavanderias. Durante a lavagem das roupas, enquanto as mulheres exibiam em público a sujeira das roupas íntimas, elas iam conversando e acabavam por revelar coisas do âmbito privado das famílias. Por isso passou-se a usar a frase roupa suja se lava em casa para dizer que coisas do âmbito privado devem permanecer privadas.

Bem, agora que você sabe a origem medieval das duas expressões, já pode ver que a linguagem que usamos não têm necessariamente a ver com nossa idade, porque de fato velha é a língua, velha e prática, já que conserva o que é essencial para a comunicação e elimina todo o resto dispensável.

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