sexta-feira, 22 de outubro de 2021

De contos, causos e oralidades: chinelar pelo mundo

Publicado em 1 de março de 2021, às 11:51
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Freepik

Você conhece o verbo chinelar? Muito provavelmente não o encontrará em dicionários mais antigos. Talvez você até encontre definições para o termo em dicionários mais novos na internet, mas dificilmente com o sentido que a ele se costuma dar em certas regiões do Brasil.

Sim, chinelar vem de chinela, ou de chinelo, aquelas placas de couro, plástico ou borracha que se costuma pôr nos pés para não ter que andar descalços por aqui e por acolá dentro ou fora de casa. A ação de chinelar se relaciona com pés e pernas, mas também a algo que assusta baratas, e outros seres passíveis de levar chineladas. E é sempre bom lembrar que chinelada sempre se associa à violência, e nunca, nunca mesmo, a qualquer propósito de educar, o que também é válido para a tal da palmatória.

Daí que você até encontra chinelo e palmatória, mas não encontrará chinelar nas páginas de Aurélios ou Houaisses, o que não impede em nada que algum dia você seja chinelado por via oral, pelas ruas, nos lugares mais inusitados do Brasil e do mundo. Curioso é que algumas dessas chineladas podem ser fruto de pura coincidência de sons e sentidos.

Veja só: um grupo de brasileiros, tendo ido passar férias na Europa na casa de uns amigos que viviam na Alemanha, planejou uma viagem a Londres. No dia da viagem tudo ia tranquilo, até que o anfitrião descobriu ter trocado os horários.

O plano era deixar a cidade alemã num trem que os levaria a uma outra estação e dali tomar um ônibus para Paris. Em Paris, o grupo deveria tomar um outro trem, que os conduziria ao desejado destino britânico, terra de Newton, o cientista que descreveu formalmente, entre outras coisas, o que acontece quando um trem freia e os passageiros não se seguram onde quer que seja. E aqui estou usando a palavra trem como bem fazem os mineiros, para quem trem pode ser tudo, incluindo aquele troço que anda nos trilhos e que em outros tempos fazia pi-uíííí.

Mas voltando aos viageiros, que também são viajantes, uma vez constatado o equívoco, foram obrigados a tomar um táxi porque como não se encontravam na estação no momento certo, o trem partiu sem eles sem dó nem piedade. O que foi muito justo aliás, pois onde já se viu esperar trem dentro de casa, sô? Tem base?! Só se esse trem fosse, por exemplo, uma carta, uma visita ou até mesmo um táxi.

No táxi, todos se acomodaram, mas seguiam muito nervosos, porque não queriam nem pensar em perder o ônibus e a tão sonhada oportunidade de conhecer a tal da Londres.

Sim, daí que, em certo momento, não faltando mais nada, e proporcional ao medo que tinham de perder a próxima conexão, surge um engarrafamento na auto estrada e então ficou parecendo aquele conto do Cortázar, A autoestrada do sul, que se você ainda não leu, sugiro que leia porque é muito bom.

Dentro do táxi, o clima era de pura tensão. O grupo se perguntava: “Será que vamos chegar a tempo na estação?”. Só sei que tão logo o taxista pôde voltar a pisar no acelerador um dos membros do grupo, achando que o motorista não entendia mesmo nada de Português, disse em alto e bom som: “Chinela, chinela!” E o taxista respondeu algo que o anfitrião entendeu e traduziu para o grupo: “Ele não pode chinelar não, senão vai levar multa!” É que na língua alemã existe a palavra schneller, que soa como chinela e quer dizer mais rápido.

Resumo da conversa: por pura coincidência a terceira pessoa do singular do verbo chinelar do Português Brasileiro se encontrou, no contexto mais que adequado, com o que se diz em Alemão quando o negócio é pisar no pedal. Um perfeito encontro de sentidos e línguas, coisa mais linda, puramente casual.

Um minuto mais tarde e o grupo teria perdido também o ônibus, mas desta vez conseguiu chegar a tempo de pegar o bicho na estação. O taxista foi tão camarada que ainda deu um desconto no preço da corrida. Assim seguiram viagem e puderam conhecer a tal da Londres cinzenta e fria.

A vida tem dessas curiosidades, não é mesmo? Enquanto muitos brasileiros sonham em poder viajar pelas cidades frias, caras e cinzentas da Europa, muitos europeus dariam tudo para poder chinelar por lugares paradisíacos como, por exemplo, a Chapada das Mesas, na região tocantina… 

E é chinelando pelo mundo, mais rápido ou devagar, que se aprende a enxergar a beleza das cores locais. Assim sendo, quando ouvir alguém usando este verbo por aí, não desdenhe: chinelar é internacional!

2 respostas em “De contos, causos e oralidades: chinelar pelo mundo”

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