domingo, 17 de outubro de 2021

MARIA FIRMINA DOS REIS E AS BORDAS DA ATHENAS BRASILEIRA

Publicado em 3 de novembro de 2020, às 18:00
Imagem: Literafro

Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor

O Livro de Maria Firmina dos Reis, Úrsula, me causou um grande impacto, como vocês podem perceber pois este já é o segundo texto que escrevo sobre ela e ele. Não o livro em si, pois também já disse que não é nada mais que um “romance romântico”, na mais ampla acepção do termo, da estrutura e do movimento a que ele se vinculava.

Meses atrás, publiquei um artigo aqui neste site (https://regiaotocantina.com.br/2020/10/06/maria-firmina-dos-reis-e-o-cemiterio-dos-esquecidos/) sobre o fato de a autora e a obra estarem reservadas ao cemitério dos livros maranhenses esquecidos. Toda a divulgação que hoje se faz de ambos é uma fagulha na grande luz que mereciam. Mas não receberam.

Agora quero abordar outro aspecto, para mim tão importante quanto o romance e a sua autora, que é a sua circulação.

Quem leu algo sobre o romance Úrsula pôde verificar que Maria Firmina não o autografa. Ele é publicado sob o pseudônimo “Uma Maranhense”. Quem lê o prefácio da obra entende a razão disto: o texto deste prefácio é quase um pedido de desculpas da autora pelo atrevimento de ter incursionado por caminho apenas liberado a pessoas letradas e importantes – em geral, bacharéis, brancos e ricos.

E aí, é preciso lembrar que a autora traz o livro à luz em 1859, dentro do período de consolidação do que se convencionaria chamar, por toda a segunda metade do século XIX e até hoje, de a Athenas Brasileira, para se referir a São Luís – e, por extensão, ao Maranhão, num exercício metonímico.

Maria Firmina, mulher, negra, residente e domiciliada em Guimarães, interior maranhense, professora de primeiras letras, tinha todos os predicados para não entrar na “ordem do discurso” literário ateniense (para lembrar Foucault). Não lhe era dada a possibilidade que escrever e ter sucesso com seu romance, que ademais denunciava (na sua linguagem adocicada, mas denunciava) a escravidão e todo o seu rol de vilanias.

Úrsula estava bem distante do que o professor e historiador Henrique de Paula Borralho, na sua tese de doutorado (A Athenas Equinocial: a fundação de um Maranhão no Império Brasileiro), qualifica de “Pentarquia Maranhense” – os cinco pilares da construção do mito intelectual da Athenas Brasileira, a saber: o matemático Joaquim Gomes de Sousa; o jornalista João Francisco Lisboa; o gramático Francisco Sotero dos Reis; o tradutor Manuel Odorico Mendes; e o poeta maior, Gonçalves Dias. Estes eram os maiores representantes do que Borralho chama de “os homens-semióforos”, os faróis a levar as luzes da pequena joia insular maranhense para o resto do Brasil.

Essa construção identitária, uma verdadeira “tradição inventada” para concordar com o historiador Eric Hobsbawn, foi tão forte que criou várias gerações: Os Atenienses, Os Novos Atenienses, Os Novíssimos Atenienses e até hoje viceja. Lembro que, ali pelos anos 1990, quando era mais forte o debate se São Luís era Jamaica Brasileira, muitos intelectuais mais ortodoxos diziam que quem já foi Athenas jamais poderia ser Jamaica… (para bom entendedor, não é preciso dizer muita coisa…).

Absolutamente, neste cenário de intelectualidade helenística a obra de Maria Firmina não teria espaço de visibilidade. Nem ela. O livro e a autora circularam, então, pelas bordas da Athenas Brasileira. Para chegarem até aqui e receberem um relativo reconhecimento – mas para além da ilha…

3 respostas em “MARIA FIRMINA DOS REIS E AS BORDAS DA ATHENAS BRASILEIRA”

Há um tanto de ironia…
Apesar de todo sombreamento imposto pelos lembrados preconceitos “helenísticos” da Ilha, a humilde e (quase) anônima autora foi uma Maria real… Sobrenome DOS REIS.
Para entalar o gogó dos ilhados de Upaon Açu…

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