sexta-feira, 19 de julho de 2024

OS FILHOS SÃO COMO CANIVETE SUÍÇO

Publicado em 13 de junho de 2024, às 9:29
Fonte: Marcos Fábio Belo Matos – Jornalista, escritor, revisor, professor universitário.
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Penso que a relação entre pais e filhos, na maioria das vezes, pode ser representada assim:

Um belo dia, sem saber bem por que, você recebe, de presente, um canivete suíço. Sim, aquelas engenhocas cheias de penduricalhos, milhares de peças prateadas que, abertas, parecem um ser extraterrestre, um aracnídeo, uma centopeia, um caranguejo. Parece algo estranho. E você olha para aquele canivete ali na sua frente, ainda embalado, e não entende bem a razão de ter recebido. Mas sabe que, de alguma forma, ele será importante na sua vida. E vai em frente com seu canivetinho a tiracolo.

E o tempo passa, o tempo voa. E o seu canivete suíço, a cada dia, apresenta a você mais descobertas. Você vai, literalmente, aprendendo a usar, a trabalhar com ele, a entender a sua utilidade. Estabelece-se entre você e aquela peça uma verdadeira linguagem. Uma linguagem de proximidade, de calor, uma linguagem familiar.

Aí, quando você vê, já se passou uma década. E aquele presentinho já faz parte da sua vida, já está no seu dia a dia, incorporado, como aquele sinal de carne que você traz desde a infância nas costas. É seu, é parte sua, acompanha você sempre. Muitos anos já, de convivência, de conveniência, de compreensão e de alguns entraves na estrutura, que você precisou resolver: um arranhão, uma queda, uma torção numa ponteira – que, em geral, você precisou resolver com limpeza, cuidado ou conserto mesmo.

Você passou a perceber que o canivete meio que ia mudando de personalidade, sabe? Em alguns momentos, era mais fácil de lidar; em outros, oferecia uma experiência mais lúdica; em outras épocas, parece que se trancava e nenhuma daquelas pontinhas queria sair do seu espaço para, por exemplo, afiar um graveto, cortar uma manga, abrir uma garrafa de vinho. Em geral, quando isso acontecia, você deixava aquela haste na dela, fazia com outra. Uns dias depois, voltava como se nada tivesse acontecido e, zap!, ela abria. E seguia a vida.

Vinte anos, trinta anos, e o seu canivete parece que estabeleceu com você uma relação de cumplicidade madura. Você precisa de uma lixa, a lixa se apresenta e faz sua função da melhor maneira possível. Precisa de uma lâmina, aqui está ela bem disposta. Precisa fazer um furo numa lata de ervilha, o furador tá na mão. Etc. Você, de tanto que a relação está azeitada, em harmonia, até passou a conversar com seu canivete, se pega agora contando coisas pra ele…

Aí, quando em geral chega o outono dos seus dias, você entende que aquele canivetinho, que chegou para você, embalado naquele papelzinho enfeitado, para o qual você olhou com aquela cara de “Meu Deus! O que eu faço com isso?”, se transformou na coisa mais útil que alguém podia um dia ter te dado. E é recíproco: ele a você, você a ale; vocês formaram uma simbiose – uma simbiose feita de afetos e tempo.

Afinal, com aquele canivetinho você descascou, na vida, muitos abacaxis – rodelas que, no fundo, eram de fruta doce…

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