sexta-feira, 19 de julho de 2024

ENTREVISTA – CONVERSA ENTRE POETAS: ANNA LIZ E LUIZA CANTANHÊDE

Publicado em 7 de abril de 2024, às 9:44
Fonte: Anna Liz Ribeiro é aluna do Mestrado Profissional em Letras da Unifesspa.
Anna Liz Ribeiro (E) e Luiza Cantanhêde (D) são duas poetas maranhenses de projeção nacional. Imagem: Site Região Tocantina.

Nesta entrevista, conduzida pela escritora Anna Liz Ribeiro e publicada, originalmente, na página da Academia Imperatrizense de Letras no Jornal O Progresso, a poeta Luiza Cantanhêde rememora a infância, as influências literárias, o percurso de formação como escritora e relata as dificuldades para publicar e disseminar sua obra, num país marcado por dificuldades editoriais e sociais, como o racismo estrutural. Um diálogo cheio de beleza, testemunho e sensibilidade. Vale a leitura!

ANNA LIZ: Luiza, fale um pouco de como foi a sua infância e se essas vivências influenciam sua escrita?
LUIZA CANTANHÊDE: Anna, eu tive uma infância tranquila, apesar das dificuldades inerentes a toda criança que nasceu num lar humilde no interior do Maranhão. Sou filha de pais lavradores, minha mãe, além de agricultora, foi também quebradeira de coco; o poema Treinamento, que consta no Palafitas, meu primeiro livro, sintetiza esse ambiente:
TREINAMENTO
Na barriga de minha mãe
Eu andava pelos babaçuais
do Maranhão
Não sabia ainda a função
do machado
O coco aberto e ferido
O azeite
Depois conheci a fome
E a lâmina.
E sim, essas vivências influenciam minha escrita.
Como filha de lavradores, tive a primeira aprendizagem nas metáforas da roça, portanto sou poeta das coisas simples, da pequena lamparina enferrujada no canto da sala, no entanto a minha poética está ligada à resistência.

AL: Luiza, de onde vem a sua inspiração para escrever?
LC: Eu diria que vem “da vida”, em toda a sua dimensão e amplitude. O escritor e crítico brasileiro, Davi Arriguci Júnior, diz que “a literatura é um instrumento híbrido, fragmentado, de identidades dramáticas que buscam abarcar o humano”. Eu concordo com o teórico. Nós sabemos que a poesia trabalha com o simbólico, figuras de linguagem, metáforas…E que nem sempre a encontramos na materialidade do cotidiano, num texto Literário eu também busco o inefável, o abstrato, porém eu preciso me espantar e me encantar também com algo materializado, que pode ser uma cena, um rio, uma estrada de chão batido, um babaçual, uma plantação… Por isso que digo que “a minha palavra é de coisa vivida”.
AL: O que você costumava ler na adolescência? Quais suas referências de literatura?
LC: As primeiras “lições” eu aprendi com meus pais, que não tiveram a oportunidade de estudar nas escolas formais. Eles me ensinaram muito sobre a resistência e a resiliência dos trabalhadores rurais. O pouco que ganhavam, era para nossa subsistência, e por isso não tínhamos livros em casa, tínhamos sim, muita oralidade, histórias contadas por meus pais, sobretudo de suas infâncias, mais difíceis e mais dolorosas que a minha. E, realmente, só aos 14 anos eu tive um encontro propriamente dito com os grandes clássicos da literatura, ao vir passar férias em Teresina, encontrei uma estante “abarrotada” de livros Literários, na casa de meu irmão, muito embora eu já era muito envolvida com a leitura, lia sempre, revistas e os livros emprestados dos amigos. Neste universo amplo e diversificado que a literatura nos proporciona, li muito dos cânones, ainda bem jovem, a exemplo de Ferreira Gullar, Nauro Machado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, António Ramos Rosa, Rilke, Camus, Herberto Hélder, Hilda Hilst, Orides Fontela, Ana Cristina César, Adélia Prado, Cecília Meireles, Ligia Fagundes Telles, Clarice Lispector…
Hoje, “abraço-me” aos contemporâneos, com o privilégio de muitos deles(as) serem meus amigos(as).

AL: Como é o caminho de uma escritora negra no Brasil? O fato de ser negra complicou sua carreira em algum momento?
LC: O caminho de uma escritora negra no Brasil pode ser desafiador devido às barreiras estruturais, como o racismo sistêmico e a falta de representatividade no meio literário, ocultada pela predominância de uma voz discursiva de macho branco, patriarcal, que domina a nossa sociabilidade. Muitas escritoras negras enfrentam dificuldades para terem suas obras reconhecidas e publicadas, além de lidar com estereótipos e preconceitos. No entanto, o cenário tem evoluído com o surgimento de mais espaços e iniciativas que valorizam a diversidade e promovem a visibilidade destas escritoras, dando voz e oportunidades para que compartilhem suas histórias e perspectivas únicas. A resiliência, a persistência e o apoio de comunidades e movimentos literários que celebram a diversidade são elementos importantes nesse percurso e, no meu caso, quando cheguei a este cenário, as coisas já estavam (estão) mais favoráveis, portanto, não tive muitos entraves, a não ser estes que todas nós temos: a dificuldade de publicar e fazer os livros circularem.

AL: Você tem recebido muitos prêmios importantes no Estado do Maranhão e nacionalmente. Como esses prêmios refletem na tua carreira? Qual reconhecimento você ainda espera receber?
LC: A poesia tem me levado a lugares impensados, mas em todos eu seguro nas mãos dos meus ancestrais, não nego a minha identidade. Carrego comigo todas as marcas, as feridas e as cicatrizes de todas as lutas que travei para conquistar estes reconhecimentos. Os prêmios abalizam a minha produção, indicam que esta produção vem ganhando força e qualidade discursiva, são uma validação da qualidade do nosso trabalho, nos dão credibilidade, abrindo portas para novas oportunidades de publicação, e participação em eventos literários. O reconhecimento que espero vem dos meus leitores (as). Me alegra saber que posso tocar pessoas em um nível emocional profundo e poder contribuir com o enriquecimento humano cultural através de minhas obras.

AL: Você é uma autora negra e se reconhece como tal, no que se refere a temática, a autoria, ponto de vista e a linguagem dos seus poemas?
LC: Sim! Eu sou a experiência de ter nascido mulher, negra, filha de lavradores, numa conjuntura que nos exige disputar um espaço sociológico o tempo inteiro. Mas tenho rompido essas bolhas através da Literatura.A Conceição Evaristo serve para completar meu raciocínio quando diz: “escrever e publicar são atos de rebeldia que nos colocam em outro lugar, contrariando o imaginário que a sociedade brasileira tem sobre nós”. Eu estou no quarto livro. Eu não esqueço das palafitas. Dos terreiros. Eu não esqueço dos meus ancestrais um só instante, por isso escrevo. A minha poética também se identifica com a luta campesina, a questão da terra, da injustiça, da fome, da força do homem do campo, atravessa a minha poesia. Neste horizonte de terra, identidade e memória, esta poesia procura ser um foco de luz nos invisíveis.

AL: Sobre a pauta antirracista no Brasil, como você vê? Tem avançado ou estagnado? Na sua opinião, a sociedade tem consciência disso?
LC: Nosso país é um exemplo histórico de exclusão, exploração, maldades. O homem e a mulher (negros e negras do Brasil) construíram o país, no entanto são impedidos de participar da inclusão social tão necessária entre nós. É fato que a pauta antirracista no Brasil está ganhando mais visibilidade, no entanto ainda enfrenta desafios significativos. A conscientização sobre o racismo e a necessidade de ações antirracistas vêm crescendo, porém, ainda há muito trabalho a ser feito para combater este racismo estrutural enraizado entre nós e promover a igualdade racial.Agradecendo pela entrevista, pela escuta, finalizo com um trecho do poema “Amigo secreto”, que consta do meu livro mais recente “Plantação de Horizontes”: “(…) Abraço-me aos espinhos e escrevo um poema para os invisíveis”.

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