Raramente alguém escreverá um conto, um poema, uma peça teatral, uma crônica, um romance, um roteiro ou mesmo uma breve mensagem em um dos aplicativos de comunicação instantânea com o intuito de não ser lido. Mesmo que o texto atinja apenas seu autor e algumas pessoas próximas, parte do objetivo estará alcançado. Quando essa pessoa se propõe então a reunir seus textos em um livro, fruto muitas vezes de imensos sacrifícios, é para esse trabalho circular, ser lido e, caso possível, comentado.
Dessa forma, quando alguém, por motivos indecifráveis, sugere que determinada obra ou autor seja tão bom ou tão ruim que não mereça ser estudado, comentado ou criticado, essa pessoa se arvora de um poder que não tem: o de tentar jogar um autor ou uma obra no já abarrotado fosso do esquecimento, no limbo da própria história de um povo que já é acusado de não dar o devido valor à leitura e a seus autores. Um autor precisa de um público para que suas palavras possam ganhar uma sobrevida e acalentar sonhos.
Foi possivelmente no intuito de alçar voos a partir das palavras escritas, que, em 1990, um jovem, com menos de vinte anos de idade, resolveu publicar seu primeiro livro. Naquele tempo, os recursos gráficos eram tão escassos quanto os recursos pecuniários de alguém que não houvesse nascido em berço de ouro e que iniciava os primeiros passos na vida profissional. Escolhido o título – Anonimato – passou a seu amigo, o design Marcelo Henrique Lima Figueiredo (hoje merecidamente premiado e reconhecido por seu talento) a tarefa de elaborar uma capa para o livro. Na base da quarta capa, o escritor iniciante deixou um recado: “As falhas são resultado da imperfeição humana”.
Além de um prefácio assinado pelo próprio autor, o livro contém trinta poemas que versam sobre diversos temas, mas que, quase sempre remetem a um olhar introspectivo sobre o ser e estar no mundo. Em alguns momentos do livro, é perceptível a abordagem metalinguística ou até mesmo neorromântica, com algumas incursões nas críticas sociais. Para Marcos Fábio Belo Matos, o poeta é um ser com poderes demiúrgicos e, ao mesmo tempo, um trabalhador dos sonhos e das palavras. No último verso do primeiro poema do livro, o autor diz que “o poeta é um operário dos sonhos”.
Ao longo das páginas, o leitor percebe a presença sub-reptícia de um ser despedaçado, amargurado e fragmentado que tenta se recompor a partir do contato com as palavras, com as memórias e com as inúmeras tentativas de dar um novo sentido a uma vida carregada de sofrimentos, mas que precisa se ancorar em algo que lhe traga algum tipo de alento. É o que ocorre, por exemplo, no poema “Intocável”, reproduzido a seguir:
São,
Vou andando na estrada da vida
Com o mundo me moendo as carnes
Chupando os ossos
E degustando
Os restos de meu sangue ácido.
Praticamente todo o livro é atravessado pela presença de um eu lírico que se sente em descompasso com o mundo que o rodeia. Uma espécie de recorrência dialógica ao gauche drummondiano e ao desconcerto do mundo preconizado por Luís Vaz de Camões em seu célebre poema. Sem preocupações com métricas e com rimas – mas apelando constantemente para aliterações, assonâncias, anáforas, metáforas e outras figuras de linguagem – o poeta centrou os seus textos nas (in)certezas de um vazio existencial, como pode ser visto nos versos iniciais e finais do poema intitulado “Caos”.
Imenso vazio que me envolve
Grande solidão que me devasta
Infinita sombra que me acompanha
(…)
Escuro do meu dia
Solidão de minhas solidões.
Porém o fato de se sentir preso em “um corpo nu, esquelético” e “Sob a pele parda e sardenta” (poema “Defeitos”) e de vaguear “nas marés de minha solidão” (poema “Fatalidade”), o eu lírico do livro não se fecha em si. Ele encontra espaço para, mesmo diante de um turbilhão de insatisfações que o envolvem em uma miopia particularizada, levantar a cabeça e encarar um mundo cheio de injustiças sociais. Sabedor de que “tudo é uma cortina negra / que barra meus passos” (Poema “Miopia”), esse eu lírico é um ser inconformado com o que se passa dentro e fora de si. Sua posição de ser aparentemente anônimo imerso em uma multidão de outros anônimos não impede que ele lute contra as injustiças sociais, principalmente ao se defrontar com as dores de uma “Infância perdida”, como ocorre no fragmento a seguir:
Cadê a criança presa no âmago?
(…)
Perdeu-se no mundo
Não encontrou abrigo
Nos orfanatos
Nas casas de família
Nas favelas
Nas zonas
Gritou por socorro
Sentiu fome e frio
Foi estuprada
Drogada
Usada
Virou marginal
Matou e feriu
Anonimato, o livro de estreia do professor e escritor Marcos Fábio Belo Matos, é hoje uma obra rara, com poucos exemplares disponíveis para leitura, porém, nessas mais de três décadas que separam sua publicação dos dias atuais, os dramas humanos e as questões sociais suscitadas ou denunciadas pelo poeta ainda fazem parte de nosso cotidiano. O livro continua atual.
Marcos Fábio Belo Matos é jornalista, professor da Universidade Federal do Maranhão e já publicou diversos livros, como, por exemplo O homem que derreteu e outros contos (1997), E o cinema invadia a Athenas – história do cinema ambulante em São Luís (2001), Crônicas de menino (2005), Cotidiano Cinza (2005), Contos Cáusticos (2016), Ecos da Modernidade – uma análise do discurso sobre o cinema ambulante em São Luís (2016), O 18º andar (2017) e Veritas – contos do cotidiano (2023), além de haver organizado diversas obras de cunho científico sobre linguagens e jornalismo.
É importante ler os trabalhos de nossos autores, valorizar o suor alheio derramado. Quem somos nós para decretar a morte de um livro, de um texto ou de um autor, ou de julgar, apenas pelo prisma de nosso olhar, se um trabalho é medíocre ou não? Quem somos nós para jogar tanto esforço na vala comum da vaidade ou do anonimato? É preciso sempre lembrar que “as falhas são resultado da imperfeição humana”.