sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

 O EROTISMO  na obra de Eliane Morais Araújo

Publicado em 6 de outubro de 2023, às 5:59
Fonte: Linda Barros, professora e atriz. Membro da Academia Poética Brasileira. @lindabarros_
Imagem: Linda Barros

“Não há um ponto dentro de nós, exclusivos,

que nos faz ser únicos no mundo da vida”.

Eliane Morais

A vida escorre pelos dedos com uma velocidade quase imperceptível e é difícil de acompanha-la. E, nessa velocidade, ocorrem também as transformações ou alterações na nossa sociedade, fazendo com que tenhamos (forçosamente) que andar lado a lado com tais mudanças. Mas, o que acontece quando se já está a quilômetros de distância dos chamamos “costumes rotineiros”? E o que acontece também quando rompemos as barreiras do “normal” ou do “ideal”? Possivelmente agregamos à sociedade riquezas e valores culturais que ganhamos de nossos pais ou de outros antepassados e, visivelmente, somos reconhecidos por esses valores culturais que passam de geração a geração.

Vamos para a literatura. Sobre quais temas devemos escrever em nossos textos literários? Que linguagem ou vocabulário devemos usar? A quem devemos “agradar”? Bom, escrevemos para “agradar a alguém”. A quem? Temos leitores (ou públicos) específicos? E quando o assunto é tabu? Será que esse mesmo público continuará lendo nossos textos?

E em meio a essas escolhas, temos o erotismo, encontrado nas obras Comensais e Rol das Faces, da escritora Eliane Morais Araújo, que aparentemente parece polêmico, no entanto, a autora traz nas referidas obras, essa temática, com muita sutileza, leveza e harmonia, que acaba acolhendo leitores das mais diversas faixas etárias. E em se falando em leitores diversos, temos a seguir a opinião de duas adolescentes, leitoras vorazes,  que se dispuseram a opinar sobre o erotismo na literatura:

A.C. 15 anos,

“O erotismo é tido como tabu na literatura desde sua aparição, particularmente, não gosto muito de ler. No entanto, acredito que leria algo mais suave, uma obra em que trouxesse uma linguagem não tão vulgar e nem demasiadamente apelativa. Acredito que essa temática não deveria ser um tabu, pois tratar essa vertente, dessa forma, só nos leva a mais exageros, entretanto, se fosse assim, onde estaria a literatura com linguagem mais exótica e adulta?”

A.R. 15 anos,

“O erotismo é bem famoso na literatura desde sua aparição. É, sim, um tema que chama a atenção, principalmente dos jovens de hoje em dia, que mesmo se negando a dizer que não consomem, mas leem, sim, um exemplo clássico disso é a obra “50 Tons de cinza” que fez muito sucesso também entre os jovens. Digo que erotismo depende muito da categoria do livro, pois devido a isso, ele pode ser exagerado e desnecessário dentro do enredo, que às vezes é utilizado somente para prender a atenção do leitor. Particularmente, não gosto e não leio esse tipo de conteúdo, pois não é de meu agrado, mas se, por ventura, eu viesse a ler um livro com esta temática ou sobre esse assunto, seria algo mais subjetivo, com a escrita discreta. Porém, tudo com equilíbrio certo faria de toda a escrita um ótimo livro”.

Quando se pensa em tabu, automaticamente o que vem à nossa mente é “o proibido”, de difícil acesso, impraticável pelos bons costumes, algo que fere a moral de uma sociedade. O significado de tabu geralmente se refere a uma “proibição da prática de qualquer atividade social que seja moral, religiosa ou culturalmente reprovável”, mas também pode significar algo que agrida de uma certa forma os padrões sociais. No entanto, isso depende muito da visão e comportamento de cada um, pois, como se sabe, o “imundo ou impuro” muitas vezes está na cabeça de cada um.

Eliane Morais Araújo traz esse tema à tona quando estreia na ficção com o romance “Comensais”, em 2014. A autora se debruça sobre o erotismo em sua obra, mas com uma singularidade peculiar, com muita suavidade e leveza, deixando o leitor mais tímido, muito à vontade com o enredo da obra. O amor ardente entre os personagens Fernando e Ly é principal tema do referido romance. Com prefácio do escritor Arquimedes Vale, “Comensais” chega com força às prateleiras não só maranhenses, mas no resto do país e até fora do Brasil. A obra tem enredo narrado em São Luís e em Alcântara e leva o leitor a também conhecer o colorido das paisagens de Portugal. Cultura, gastronomia e costumes são temas que a autora traz fazendo uma espécie de intercâmbio entre Portugal e Brasil.

Em uma análise, o escritor José Neres fala que “Comensais é um daqueles livros que levam o leitor a sair de sua realidade e viver em um mundo paralelo espelhado em parte de nossa realidade, mas onde as fantasias, o amor, as dúvidas, as viagens e a realização de sonhos fazem parte da existência de todos, tanto das personagens, quanto dos leitores”  

“A busca com sucesso, na sua escrita, encontrar as forças essenciais para além dos sentidos que podem mover um homem e uma mulher na busca da felicidade”, disse Sanatiel Pereira ao prefaciar o segundo livro de Elaine Morais Araújo, “Rol das Faces” (2019). Pode-se dizer que sensualidade é a palavra que mais define essa segunda obra da autora. Trazendo também o erótico, mas também com uma leveza estonteante e envolvente.

Outra obra de Elaine Morais é “Rol das Faces” que traz a angústia, o desejo e prenúncios de uma personagem (Júlia), atormentada e fascinada por um mundo, um lugar que ainda não conhece, mas sonha desesperadamente em encontrar e se encontrar como pessoa. O país dessa vez é a Itália, lugar que permeia os sonhos da personagem principal. Lá, Júlia vai conhecer Enrico, com quem tem tórridas noites de amor. O leitor mais atento à história e às paisagens talvez nem se dê conta das cenas mais quentes entre os personagens, já que Eliane Morais descreve com muito cuidado e carinho esses momentos e de uma certa forma acaba envolvendo o leitor também. Rol das Faces já recebe o leitor com poesia em suas páginas iniciais: “…Feliz é quem ama sem medo de amar/As lágrimas que falam de amores da alma/carícias do vento quem do Vesúvio, falando em sussurros de tempos antigos/século após século até se encontrar… para verem o amor milenar”.

Eliane Morais Araújo é maranhense nascida em Santa Inês. Viveu um bom tempo no Pará, onde teve inspirações nos rios amazônicos. Eliane é escritora, poetisa e romancista. Faz parte da SOBRAMES – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, é acadêmica imortal correspondente da Academia de Artes de Cabo Frio, Rio de Janeiro. Em 2018 2018 tomou posse na AJEB – Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – RJ. A autora é participante ativa em congressos nacionais e internacionais e em várias antologias. Sua primeira obra, “Comensais”, foi lançada internacionalmente em Lisboa e em Viana do Castelo, obra que também se estendeu a outros países de Língua Portuguesa.

Com temática tão polêmica como o erotismo, Eliane Morais Araújo alcançou vários prêmios, como o Troféu Categoria Literatura, em Blumenau Santa Catarina. Rendeu-lhe também a Medalha Personalidades 2015, em Cabo Frio/RJ, foi homenageada em Itabira/MG com o Troféu Cecília Meireles – Mulheres Notáveis. Em 2016 recebeu o grau de Oficial, da Ordem do Mérito Coninter Artes – Conselho Internacional dos Acadêmicos de Ciências, Letras e Artes, onde tornou-se imortal por sua grande expressão literária no país. Ainda em 2016, recebeu da ALB a Medalha de Mérito Lítero-Cultural Euclides da Cunha. Entre tantas honrarias recebidas merecidamente, em 2017, a autora de Rol das Faces tomou posse no Núcleo de Artes e Letras de Lisboa.

E assim, trazendo à tona essa célebre autora, com tema que pode ou não ser considerado polêmico, só deixa a certeza de que literatura é arte, nas palavras, nos enredos e nas ações dos personagens que nada mais são do que um espelho da realidade, e cabe a cada sociedade fazer discussões para desmistificar tabus e tratá-los como temas corriqueiros e muito visíveis em todas as vertentes artísticas, seja nos livros, seja na televisão, seja no cinema; pois cada ser humano possui os seus próprios padrões morais e, por fim, dizer que os tabus existentes em uma cultura podem também não existir em outras.

E como ela bem diz,

Não gosto de falso

puritanismo

Minha alma milenar

abomina os monstros de

roupas quase angelicais

Prefiro a nudez dos loucos

que desnuda os corpos

Deixando a alma com a Com a

leveza da paixão

E a pureza do amor no

Coração.

Então, “viva la vida” e solte sua liberdade interior e leia, leia todos os gêneros, para então, poder fazer suas críticas, e sabendo que nem sempre suas escolhas irão dizer quem você é.

Uma resposta

  1. Obrigada pelo belo e instigante texto Linda Barros, que infelizmente ainda é tabu.
    “Eros” vem do grego, que significa desejo, amor, paixão.
    Erótico é tudo que é belo e nos dá prazer, desde um copo d’água que mata nossa sede, saciando-nos de prazer, à beleza de uma mesa bem arrumada para um jantar, assim como o ato sexual.
    O Eros é a força da vida, a energia mais pura que existe, dentro da natureza ou do divino, se assim quisermos falar, ou como deveria ser falado e visto, olhado com carinho e com respeito.
    Quanto ao Ser, este é o princípio do Eros, ou seja, é o princípio do belo, da força, da ordem, da criação, da beleza, da bondade, do prazer, da estética.
    O Ser e o Eros são naturalmente puros, sempre estão em ordem com o bem estar. O que acontece, muitas vezes, é a distorção existente na cabeça das pessoas, como uma programação interna e negativa, criando repressões que são cultuadas dentro de normas morais da sociedade, e que costumo chamar de falso moralismo ou falso puritanismo.
    Eu, como escritora, tenho um prazer extremo de escrever o belo do erotismo na sua naturalidade pura, chegando até ao orgasmo da alma, que é o mais puro que existe.
    Eliane Morais Araújo

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