quinta-feira, 11 de agosto de 2022

SÓ-LIDÃO

Publicado em 13 de junho de 2022, às 16:55
Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor.
Imagem: Freepik

Existe uma coisa que faz mais sentido do que a compra de mês do supermercado; do que aquela viagem dos sonhos; do que aquele bem durável para o qual se economizou anos a fio; do que aquele diploma tão suado; do que a casa com móveis planejados; do que aquela experiência de sentir o sagrado; do que qualquer outra coisa que seja fundamental.

É ter alguém.

Alguém para dividir aquela compra do supermercado; para usufruir aquela viagem tão sonhada; para celebrar a conquista da casa, do diploma, do bem durável fruto da economia de anos; para contar a experiência do sagrado; para registrar nas fotos da vida, naquele velho álbum de retratos ou em todos os aplicativos possíveis e imagináveis – espelhos da vida; para qualquer outra coisa.

Alguém que pode ser uma pessoa (um filho, uma filha, uma esposa, um marido, um amante, uma amante, um namorado, uma namorada), um bicho, uma planta, uma lembrança, uma saudade, uma idealização. Alguém. Ou alguéns.

A literatura está cheia de exemplos assim. A história de Adão e Eva; de Helena de Troia; de Romeu e Julieta; de Crisóstomo e Marcela; de Bentinho e Capitu. Ou a sua. Ou a minha. Ou a nossa.

Claro que não é regra. Existem pessoas que vivem sem esse alguém e são absolutamente felizes. Sim.  São tão felizes que são exceção.

Em tempos de coronavírus, vale lembrar que tem outro mal que se espraia tanto quanto esse bichinho. Se espraia no silêncio, pelos cantos escuros da casa. Cresce nos espaços sombrios das casas, dos apartamentos, dos asilos, dos sanatórios, dos conjuntos de quitinetes, dos hospitais. E, em geral, faz um estrago grande.

Esse mal é a solidão.

Solidão é a falta de alguém. Daquele alguém que, um dia, ou nunca, trouxe sentido à vida de outrem. E que agora faz falta. Muita falta. Uma pessoa (viva ou morta; perto ou distante), um bicho, uma planta. Um ser. Um ser que não está mais ali. Deixou um espaço ontológico a ser completado. Um dia. Ou nunca.

A falta de alguém que torna a vida uma lida grande, uma lida pesada, um aumentativo. Só-lidão.

Uma resposta em “SÓ-LIDÃO”

Um poema, uma crônica, um poema crônica, uma crônica poema, poesia, vida vista por outros ângulos, outras perspectivas, o que reinaugura o diferente, via semântica imprevisível.
Parabéns, poeta Fábio, pela escrita tão leve de um texto sobre assunto que não desmancha no ar com facilidade.

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