sexta-feira, 19 de julho de 2024

O CLAMOR POÉTICO DE NASCIMENTO MORAIS FILHO

Publicado em 20 de março de 2022, às 10:04
Imagem fornecida pelo autor

Poetas, meus irmãos, acompanhai meu grito!

– Eu sou o sofrimento dos sem nome! 

– Eu sou a voz dos oprimidos!

 (Nascimento Morais Filho)

Professor, ensaísta, pesquisador, folclorista, ambientalista e poeta, José Nascimento Morais Filho (1922-2009) é um dos mais importantes intelectuais maranhenses do século XX. Embora atualmente seja mais lembrado por suas lutas em defesa do meio ambiente e pela pesquisa que trouxe novas luzes sobre a vida e a trajetória literária da escritora Maria Firmina dos Reis, Nascimento Morais Filho teve  importante participação no cenário cultural da literatura maranhense e deixou para a posteridade os seguintes livros: Clamor da Hora Presente (1955), Pé de Conversa (1957) Azulejos (1963), A esfinge do Azul (1972), Esperando a Missa do Galo (1973) e Maria Firmina dos Reis: Fragmentos de uma Vida (1975), entre outros trabalhos sobre temas diversos.

Desde sua estreia, em 1955, com o livro Clamor da Hora Presente, Nascimento Morais Filho já demonstrava algumas características poéticas que eternizariam sua obra. É o caso de seu estilo altissonante e grandiloquente, que permite ao leitor sentir não apenas as vozes ideológicas que se escondem por trás dos versos, mas também a sonoridade de sua voz física eivada do desejo de denunciar aquilo que julgava errado em seu entorno. Por outro lado, é perceptível o cuidado com a construção do texto e com a busca das melhores soluções poéticas para os problemas que se apresentavam e que clamavam por conhecer a opinião do poeta sobre eles. Tudo isso sem uma preocupação em seguir determinada escola literária ou se submeter à rigidez formal dos versos. Seus poemas são livres e estão em consonância com a ideia de liberdade, que é um de seus temas favoritos.

Os poemas que compõem o livro foram gestados na segunda metade da década de 1940 e eram constantemente lidos e recitados nas rodas literárias frequentadas pelo Poeta, porém os textos só foram enfeixados em livro em 1955, tornando-se logo uma obra de destaque na literatura maranhense, sendo elogiada por diversos intelectuais de renome dentro e fora da província natal do autor. Por conta do sucesso da obra, que havia se tornado uma raridade bibliográfica, em 1984, o Clamor da Hora Presente voltou às mãos dos leitores com algumas modificações com relação aos poemas da edição princeps e acrescido de uma fortuna crítica e de uma apresentação que informa a respeito das alterações realizadas.

Uma nova edição do livro veio à luz em 1988, com nova roupagem gráfica e a correção de pequenos problemas de revisão que possivelmente incomodavam o autor. Em 1992, ganhou o livro uma edição internacional publicada pelo Serviço de Obras Gráficas do Estado do Maranhão – SIOGE. Desta feita, o livro contava com traduções dos poemas para o francês, o inglês e o alemão, além de trazer um compilado das apreciações críticas de diversos intelectuais do Brasil e de outros países acerca da produção literária de Nascimento Morais Filho, o que demonstra o impacto positivo de sua obra sobre parte dos formadores de opinião da época.

Depois de mais de um novo intervalo de quase três décadas, em 2021, esse importante livro ganhou uma nova edição organizada pela família do escritor. Trata-se de um livro necessário no qual, em apenas quatro poemas – Evocação, Apocalipse Social, Clamor do Petróleo e Clamor da Hora Presente – o poeta sai em defesa dos oprimidos e, a partir da palavra sem se ater às formalidades preconizadas pelas estéticas tradicionais, luta por melhores condições de vida para todos. No posfácio desta nova edição, a professora e crítica literária Natércia Moraes Garrido comenta que os quatro poemas que compõem o livro “pregam a liberdade em vários sentidos e propósitos, transgredindo pelo ato de pensar e questionar a ordem social a que o homem se insere”.

O uso constante de exclamações, interrogações, vocativos e iniciais maiúsculas ao longo dos textos aproxima os leitores das ideias defendidas pelo poeta, que vê no sucesso dos potentados o sofrimento e a fome dos oprimidos. Consciente da existência de um incômodo silenciamento social, o eu lírico se coloca ora como “o sofrimento dos sem nome” e “a voz dos oprimidos”, ora como a própria “Revolução”, ou até mesmo como o Petróleo nascido “da convulsão das eras” e que traz dentro de si “a metamorfose das idades”. Essa confluência de vozes e de olhares serve para situar o leitor em um momento histórico no qual a própria existência do ser humano no planeta se vê ameaçada, seja pela falta de preocupação com o equilíbrio ecológico, seja pelos avanços de um capitalismo que vê até mesmo a natureza como obstáculo para seus sonhos de crescimento sem barreiras.

Nascimento Morais Filho, ainda nos finais dos anos 40 do século XX, já defendia a tese de que a solução para os problemas sociais e ambientais estava na juventude. Usando palavras que ressoam os ideais marxistas, o poeta clama pela união em prol de causas comuns à maioria da população sofrida: desigualdade social, fome, falta de liberdade, crise ambiental, interferência de grandes corporações internacionais, destruição da natureza etc.  Isso fica evidenciado nos seguintes versos e em grande parte dos quatro poemas:

Vinde a mim!

Vinde a mim, jovens de todo o mundo!

O Presente é conquista!

Vós sois o Presente

        – Cruz de que o Passado e o Futuro são os braços

Empunhai o Facho do Ideal!

E marchai!

Bastante atento aos perigos ambientais que rodeavam o planeta, Nascimento Morais Filho, em seus poemas, antecipa as lutas em defesa de um ambiente ecologicamente equilibrado e, bem antes da popularização da palavra sustentabilidade, clama por um uso mais racional dos recursos naturais, pelo respeito aos mais necessitados, pelo combate à miséria e às desigualdades sociais. Em suma: nesse livro, publicado pela primeira vez no início da segunda metade do século passado, o Poeta já traz, em sua essência, as bases de alguns dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável propostos pela Organização das Nações Unidas -ONU, na Agenda 2030.

Embora o título do livro seja Clamor da Hora Presente, é possível perceber-se que Nascimento Morais Filho não escreveu uma obra voltada apenas para sua época, mas sim um grito poético que deveria servir apara aquele momento e ressoar no futuro. E o que ele via como futuro é o presente para nós. Quase sete décadas depois, a hora presente já é outra, com novas tecnologias, novos pensamentos, novos modos de aprisionamento físico e mental, novos problemas… mas o clamor do Poeta ainda é o mesmo:

Jovens, atentai!

Não há dia sem sol nem Povo sem Liberdade.

Sou vossa Luz encarcerada na Noite da escravidão.

Libertai-me! Libertai-me!

E eu vos darei a Vida! Eu vos darei a Glória!

Clamor da Hora Presente é um livro com poemas escritos em um passado, mas cujas ideias ecoam no presente e, infelizmente, ainda serão atuais no futuro. É um pequeno livro com imensas preocupações e versos que clamam por olhos e ouvidos que sonhem com dias melhores… para todos, não somente para alguns.

Uma resposta

  1. Brilhante artigo. Professor Neres sempre contribuindo para melhor visualizamos o quanto é rica nossa literatura. Obrigado por compartilhar este artigo sobre as obras do magnífico Nascimento Moraes Filho. Aplausos de PÉ!

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