terça-feira, 17 de maio de 2022

De contos, causos e oralidades – Três palavras

Publicado em 14 de março de 2022, às 15:17
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.

Existe um número tão grande de palavras no mundo que, maioria das vezes, nem sabemos por onde começar um texto ou uma fala. Na dúvida, sigo sempre o valioso conselho que um dia me foi dado: comece por qualquer lugar, comece com qualquer palavra, ou símbolo.

A enigmática Clarice Lispector já nos mostrou, e maravilhosamente aliás, que se pode começar a contar uma história até por uma vírgula, o que faz muito sentido, já que a ideia de quase todos os relatos é esperar que haja uma pausa na vida de uma personagem para que possamos lá entrar e começar a observar, ler ou contar a sua história. E essa pausa vale para todos, tanto para quem observa, quanto para quem lê e para quem escreve a história. E nada melhor do que uma vírgula para marcar esse ponto de “intromissão” na vida do outro, não?

E também nesse sentido mágico vai um dos textos de Isabel Allende que eu mais gosto: um que se chama “Duas palavras” e faz parte do livro Contos de Eva Luna. A personagem se chama Belisa Crepusculário, e é uma mulher que aprendeu, observando como funciona a vida, que é possível viver vendendo palavras. E que vender palavras, ainda que não se possa ficar rico fazendo isso, é uma atividade tão digna quanto a de vender qualquer outra coisa que esteja dentro da legalidade.

Me pego agora pensando que, tolamente, nunca vendi palavras em minha vida. Todas as palavras que saíram da minha boca ou da ponta dos meus dedos foram dadas, doadas, presenteadas. Algumas, dependendo da ocasião, foram cuspidas ou gritadas, atiradas na cara de alguém, ou mesmo tiradas de mim contra a minha vontade para cumprirem algum propósito formal, mas nunca foram comercializadas. Não que eu condene a venda de palavras, de modo algum, dado que quem tece palavras também precisa poder sobreviver daquilo que tece, nada mais justo! Assim que talvez já esteja mais do que na hora de eu também começar a montar a minha banquinha de venda de palavras, pelo menos para poder cobrir os custos da publicação.

O problema, que aliás não é só meu, mas de todo ser mortal, é que eu não sei se ainda terei tempo de preparar algumas palavras para vender no papel. Nesse meio tempo, sigo presenteando todos aqueles que tiram um ou dois minutinhos do seu precioso tempo para lerem ou escutarem as palavras que eu solto pelo mundo, gratuitamente. Algumas dessas palavras não são minhas, são emprestadas de outras pessoas, mas sempre com o devido crédito de autoria, porque se deve dar a João o que é de João e dar a Maria o que é de Maria, não? E também porque a vida não pode ser feita só com palavras próprias, a gente sempre recorre a quem, antes de nós, nos contou histórias.

Daí que termino este texto fazendo algo parecido ao que fez a Belisa do conto de Allende, só que em vez de lhes dar duas palavras, vou lhes dar três, pra que façam com elas o que quiserem. Sim, sei que posso estar lhes dando um buquê de flores ou uma arma que, mais tarde, poderá até vir a ser usada contra mim, pois toda a palavra que se dá, tem o poder de voltar com a mesma força ou com força redobrada, então requer que se tenha cuidado na hora de soltar palavras pelo mundo. Correndo então este risco, e confiando na bondade da alma das minhas leitoras e leitores, aqui estão os invólucros para as três palavras que lhes deixo. Favor preenchê-los com sabedoria. E não querendo abrir o invólucro e revelá-las ao mundo, passe adiante, desde que sejam palavras positivas.

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