terça-feira, 28 de junho de 2022

OS 100 ANOS DA SEMANA DE ARTE MODERNA:
GRAÇA ARANHA E A CONSCIÊNCIA DOS OUTROS

Publicado em 27 de fevereiro de 2022, às 11:16
Iran de Jesus Rodrigues dos Passos Jornalista, Radialista e Professor na UEMA. Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ. Presidente da APRUEMA. Membro do IHGM, da ABEC e da ABLAC. E-mail: iranjrpassos@gmail.com.
Imagem: Internet

Há 100 anos, mais precisamente em 13 de fevereiro de 1922, o escritor maranhense Graça Aranha proferiu, no Teatro Municipal de São Paulo, a conferência “A emoção estética na arte moderna”. Com ela, foi aberta a Semana de Arte Moderna, que se estendeu até o dia 17, tendo-se, então, o início do processo de renovação da Cultura Brasileira.  
A partir daí, a natureza das manifestações artísticas nacionais passou a ser, entre outras características, a informalidade; a ruptura com o academicismo e o tradicionalismo; a crítica ao modelo parnasiano; o vanguardismo artístico europeu (Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo e Expressionismo); a valorização da identidade cultural brasileira; a fusão de influências externas aos elementos brasileiros; as experimentações estéticas; a liberdade de expressão; a utilização da oralidade, impregnada das linguagens coloquial e vulgar ; e a temática do cotidiano.
A propósito de Graça Aranha, a Universidade Estadual do Maranhão — UEMA, atenta aos fatos culturais do país, incluiu, na relação dos livros objetos de leitura pelos candidatos ao Processo Seletivo de Acesso à Educação Superior — Paes/2022 da instituição, o romance dele “Canaã”. Obra escrita, em 1902, pelo autor da conferência de abertura da Semana de Arte Moderna, o romance veio à tona no momento da transição cultural do século XIX para o XX, chamada Pré-Modernismo Brasileiro, termo criado por Tristão de Athayde, pseudônimo do crítico literário Alceu Amoroso Lima, ou, ainda, Estética Impressionista.
Além de “Canaã”, outra obra, “Os sertões”, de Euclides da Cunha, foi publicada em 1902, inserindo-se, também, no marco inicial do processo de transição do Parnasianismo para o Modernismo, termo considerado inadequado por alguns estudiosos, com a arte do século XX só recebendo esse nome no Brasil.
Nos demais países, recebeu o nome de Literatura do século XX, denominação que serve para evitar uma possível confusão com a Era Moderna, ou Tempos Modernos, quando foi iniciado o Renascimento Cultural. Com efeito, Modernismo é usado apenas pelos historiadores da Literatura Brasileira, estando relacionado à Semana de Arte Moderna.
O romance “Canaã”, título catafórico, é considerado o principal livro de Graça Aranha. Na obra, tem-se a história de Milkau e Lentz, dois jovens imigrantes alemães que se estabelecem em Porto do Cachoeiro (hoje Santa Leopoldina), no Espírito Santo. Amigos e antagônicos ao mesmo tempo, Milkau é a integração e a paz, admirando o Novo Mundo, enquanto Lentz é a conquista e a guerra, pensando no dia em que a Alemanha invadirá e conquistará a terra para a qual migrou.
A inclusão de “Canaã” na relação de obras a serem lidas pelos candidatos ao ingresso na UEMA acaba sendo um resgate de autor e obra, ambos, de certa forma, objetos de desconstrução por parte de nomes importantes da Literatura Brasileira, no caso Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e, pasmem, o maranhense Coelho Neto.
A atitude do Coelho Neto repetiu o conhecido provérbio “inimigo do meu inimigo é meu amigo” posto que, com ela, juntou-se aos detratores de Graça Aranha. O “Príncipe dos Prosadores Brasileiros”, epíteto dado a Coelho Neto, indispôs-se com Graça Aranha a partir da palestra do autor de “Canaã”, denominada “O espírito Moderno”, ocorrida no Salão Nobre da Academia Brasileira de Letras, em 19 de junho de 1924, não conseguindo absorver o rompimento do romancista maranhense com a Casa de Machado de Assis.

Imagem cedida pelo autor

Nessa conferência, o autor de “Canaã” acabou constrangendo os pares acadêmicos que relutaram em aderir aos ideais da Semana de Arte Moderna, da qual Graça Aranha foi o principal fiador/financiador, à medida que propôs a reavaliação do papel cultural da Academia Brasileira de Letras.
Para Graça Aranha, a Academia Brasileira de Letras era um equívoco. Disse, ainda, entre outras, a expressão que causou mais celeuma: “Se a Academia se desvia desse movimento regenerador, se a Academia não se renova, que morra a Academia”.
Osório Duque Estrada, que, como poeta, não fez nome literário, a não ser pela autoria da letra do Hino Nacional, e Coelho Neto acusaram o golpe. O primeiro pediu a palavra sendo vaiado pelos modernistas enquanto o segundo disse que Graça Aranha “[…] está cuspindo no prato que comeu”, uma alusão ao fato de o romancista ser membro fundador da Academia Brasileira de Letras, condição a que recusou sendo convencido do contrário por Machado de Assis.
Coelho Neto, que encarnava a literatura oficial da Academia Brasileira de Letras, nunca foi visto com bons olhos por Oswald de Andrade que, a par das diferenças com os membros da instituição, frequentava as rodas literárias acadêmicas no Rio de Janeiro, fazendo-se acompanhar de Olavo Bilac; adentrando as casas de Alberto de Oliveira e Olegário Mariano, os dois primeiros mais Raimundo Correa, maranhense, integrantes da Tríade Parnasiana Brasileira.
Essa antipatia mútua, no entanto, deu lugar ao projeto de desconstrução de Graça Aranha, em 1927, quando a Academia Brasileira de Letras, em seu prêmio de Romance, atribuiu menção honrosa à “Estrela de absinto”, de Oswald de Andrade, o que foi considerado estranho haja vista a obra ter sido escrita entre 1917 e 1921. O parecer, considerado generosamente simpático, foi de Coelho Neto.
Foi, assim, constituído o grupo principal de adversários de Graça Aranha: uns por conta de ressentimentos originados na Conferência “O espírito moderno”; outros incomodados com o fato de o autor de “Canaã” ser considerado o chefe do Modernismo.
A desconstrução do autor se estendeu à crítica literária, tendo-se como epicentro o romance “Canaã”, um marco na Literatura Brasileira, seja pela inauguração do Pré-Modernismo, seja pela inauguração do romance social, estando presentes, nele, discussões raciais e pressupostos ideológicos. Para mais, como anota Alfredo Bosi: “É o contraste entre o racismo e o universalismo, entre a ‘lei da força’ e a ‘lei do amor’ que polariza, ideologicamente, em ‘Canaã’, as atitudes do imigrante europeu diante da sua nova morada.”
Constata-se, então, que o conflito ideológico, no qual se sustentam alguns críticos com vistas à desconstrução de Graça Aranha, não desfigura, no entanto, a construção ficcional de “Canaã”, com a má vontade deles, o mais das vezes, dando a impressão de que eles não leram o romance do escritor maranhense, ou leram superficialmente.
À parte conflitos e intrigas no Modernismo, importa, na revisão do processo de renovação da Literatura Brasileira, a consciência dos outros, reconhecendo-se Graça Aranha como um dos principais atores na cena literária que foi o Modernismo Brasileiro. Foi, por isso, antes de ter sua presença sistematicamente desprezada nas avaliações do movimento, chamado por Oswald de Andrade de “protomártir da nova era” e descrito por Mário de Andrade como o “antemão da Semana de Arte Moderna”.

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