quinta-feira, 11 de agosto de 2022

DOS MEDOS URBANOS

Publicado em 1 de fevereiro de 2022, às 18:17
Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor.
Imagem: CinePopCinema

“São tempos difíceis para sonhadores”. Essa é uma das frases célebres do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, um verdadeiro poema visual, de Jean-Pierre Jeunet, de 2002, com a bela atriz Audrey Tautou, no papel-título. O filme mais visto em Paris, em todos os tempos. Para quem não assistiu, é a história de uma moça que, por entre as vicissitudes das vidas alheias, vai construindo um sentido para as vidas – as delas e a sua, enfim. Vai fazendo com que as pessoas assumam e transponham os seus medos, nada mais que isso. E, com essa descoberta, tratando de ser mais felizes, ao seu modo.

Medo. Nós, seres urbanos, somos atormentados pelo medo, o medo que a cidade põe para fora todos os dias. Medo de ser assaltado, de ser atropelado cruzando a faixa de pedestre, de ser seguido por um desconhecido, de ser violentado, ferido, morto, esquartejado, de ficar desempregado, de assumir um novo emprego, de não passar no concurso público, de não conseguir a vaga na faculdade, de não conseguir pagar a faculdade, de ficar sozinho, de envelhecer sozinho, de ser abandonado, de o salário não dar até o fim do mês, de aquele dinheirinho da poupança sumir de repente, de bater o carro, de ser batido por um, de não poder mais segurar a prestação do financiamento da casa, de o plano de saúde não garantir a cirurgia agendada, de comer comida estragada na rua, de sofrer algum tipo de atentado, uma bala perdida, uma abordagem da polícia, de não voltar para casa ao fim de cada dia…

Vemos pelos noticiários, pelos jornais impressos, pela internet e redes sociais, daqui e de todo lugar, todos os dias, uma sucessão de desgraças e tragédias humanas, quase sempre associadas à violência, individual ou coletiva, e ficamos com medo. É o medo humano. É o medo urbano. O medo que força as pessoas, nas cidades, cada dia mais, a viverem em cápsulas – os famosos condomínios fechados, vendidos pelas imobiliárias, em cujo panfleto se destaca, principalmente… a segurança. Uma vida de “paz e tranquilidade”, para você e sua família, cercada por câmeras, vigias e cercas elétricas. (Procure, no Google, um texto do Luís Fernando Veríssimo chamado justamente “Segurança” e leia. É profético…)

Em 2001, o mundo foi assolado pelo ataque às torres gêmeas. O medo, como um cogumelo de bomba atômica, qual a onda formada pela pedra na água, foi se espalhando para o resto dos países. De repente, estávamos todos com medo. Medo globalizado. Medo que foi serpenteando pelos anos afora, pelo mundo afora, pulverizando-se pelo resto dos países – e vendido como consequência de um fundamentalismo religioso. Medo fabricado e espalhado industrialmente.

Isso tem solução? Talvez. Terapia, remédios para ansiedade, para depressão, para dormir, ginástica, religião, políticas públicas efetivas, justa redistribuição de renda, respeito, qualidade de vida, Rousseau, Nietzsche, Freud, Lacan, Sócrates, Santo Agostinho. Talvez uma Amélie Poulain para nos fazer entender a face mais simples e gostosa da vida. E aí nos ajudar a nos livrar dos nossos medos citadinos.

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