quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Às vezes a gente perde.

Publicado em 13 de janeiro de 2022, às 17:02
Cristiane de Magalhães – poeta, professora de Língua Portuguesa.
Legenda: Freepik

O luto dói no corpo e na alma. A gente fica sem saber o que dizer e sem acreditar no que ouve, embora as palavras de conforto sejam imprescindíveis nessas horas. É uma dor difícil de expressar em palavras. Como disse Chimamanda Ngozi Adichie no livro Notas Sobre o Luto, “o luto é uma forma cruel de aprendizado. Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso. Aprende quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras.”  Felizmente, existem as figuras de linguagem. Recorro a elas para descrever como me sentia.

Vaguei entre casas de amigos e parentes, como quem procurava o colo dela. Eu era um zumbi naqueles meses. No vai e vem entre Imperatriz e Ribeirãozinho, eu era um pássaro ferido procurando o ninho inaugural para morrer em paz. Me isolava e me escondia, como fazem os gatos ao sentirem dor.  “Você ainda tem seu pai”, diziam. Meu pai estava tão ferido quanto eu. Quietos num canto, igual bicho do mato. Eu, minha irmã e sobrinhos, tentávamos estancar o sangue daquela ferida mútua. E graças a uma equipe de salvamento chamada amigos, parei de flertar com o abismo. 

O luto está se lixando para o corre corre da vida de professor. O pensamento calcula um culpado, culpa a si mesmo, morre de raiva e depois chora até dormir. As pernas pesam 1 tonelada cada uma. E a única coisa que o corpo consegue fazer é se curvar. Desistir. Quando viver e trabalhar começa a ficar impossível, o melhor a fazer é procurar ajuda profissional. Existem dores muito profundas que só com acompanhamento psicológico é possível superar. 

E eis outro aprendizado: o luto ensina a procurar ajuda, nos humaniza. O indivíduo se redescobre falho, faltante. A humildade e coragem de se reconhecer impotente perante a morte nos arranca da ilusão de herói e nos recoloca na vida. Nos retira da posição de  pretensioso perfeccionista que acredita que se fizer tudo direitinho é capaz até de evitar a morte de quem mais ama. O fato é que não é uma equação matemática e muito menos um jogo de “se…então”.  O luto faz cair muitas fichas.

Não respeitar os próprios lutos pode ser devastador no médio prazo. Toda perda, da aparentemente mais simples à mais trágica, requer atenção e tem sua importância emocional. No filme Divertida Mente, por exemplo, as emoções de uma menina de 11 anos entram em curto circuito, quando seus pais decidem sair de sua cidade natal para morar em outra cidade. 

Assim como a alegria tenta se impor a todo custo no filme, hoje, diante do luto coletivo que o país atravessa, devido à pandemia, somos obrigados a manter a positividade e o ritmo de vida como se nada estivesse acontecendo.  O imperativo da felicidade e o estilo “good vibes only” exibidos nas redes sociais alimentam a ilusão da vida perfeita. A obsessão por ter, fazer e ser cada vez mais coisas, o medo de ficar de fora (fear of missing out – FOMO) são válvulas contínuas de escape do sofrimento. Mas o fato é que a gente sofre. Sofrer é uma porcaria. Mas ignorar isso pode ser pior. 

E se eu tivesse levado minha mãe ao hospital e recebido um saco preto, sem direito a velório, como aconteceu com tantas famílias durante a pandemia? Se a gente não tivesse conseguido fazer uma despedida digna como foi a dela? Queria que o luto coletivo me servisse de consolo, mas só consigo ficar mais desolada, quando imagino a situação de quem perdeu o filho e o esposo para o vírus na mesma semana. Ou do filho jovem que perdeu a mãe que era também melhor amiga. Tudo isso de repente e sem os ritos de passagem tão importantes como são o velório, as visitas, cultos e celebrações. Claro, restrições que foram fundamentais para evitar mais mortes. 

Alguém me disse que, quando a gente faz de tudo pra salvar a vida de alguém e não consegue, não há culpados. A gente perde a pessoa. Sim, a gente perdeu. Perdemos Dona Ivoneide, depois de muita luta contra problemas sérios de saúde. Não somos super-heróis. No entanto, se processarmos bem as perdas, dando a devida atenção, conseguimos nos reconectar com a vida e redescobrir seu valor.

2 respostas em “Às vezes a gente perde.”

Perfeitas, bem colocadas e bem ditas palavras que traduzem exatamente sua dor e a dor de todos que já perderam uma pessoa, simplesmente, amada. Cheirooooossssssssss minha amiga! Excelente relato, poesia, desabafo; o gênero não importa, o que faz belo é o escrever e você! Faz isto muito bem!

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