terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Dias cinza

Publicado em 12 de janeiro de 2022, às 17:25
Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor.
Imagem: Freepik

Sim, há dias cinza. Dias em que você acorda e parece que todo o universo foi pintado de um tom que não é nem claro nem escuro, nem forte nem fraco, nem azul nem branco nem preto, nem feio nem bonito. É apenas cinza. Aquela cor que não tem uma identidade própria, nem parece mesmo que foi criada, parece mais um descuido, uma desarrumação pictórica, uma junção sem ter querido ser feita um dia, mas que ficou, foi ficando até ganhar um status de cor.

E aí você vai fazer as suas coisas, vai tocar a sua vida, vai ganhar o seu pão, vai, enfim, efetivar mais um capítulo nessa sua odisseia terrena. Você sai de casa com aquele tom claro-escuro te perseguindo, encontrando você a cada esquina que dobra, cada vez que olha para o céu, ou para os prédios, ou para as pessoas que passam apressadas ou lentas ou se arrastando. Todos estão substancialmente cinza.

Você chega à escola ou ao trabalho ou ao escritório ou à academia ou à obra ou à concessionária ou ao consultório ou a qualquer outro lugar onde vá produzir para o crescimento do mundo e se depara com o mesmo tom. Aí você vai lecionar ou produzir textos para alimentar a burocracia ou restaurar dentes ou fazer comida fina ou costurar roupas ou levantar paredes ou vender carros com juros embutidos ou qualquer outra coisa necessária ao pagamento das suas contas mensais e, em cada ação que for feita, em cada um dos dois turnos produtivos do dia e mais o da noite, se você tiver jornada noturna, estará o cinza pintando tudo.

Depois você vai estudar ou se divertir ou rezar para si e para os seus ou se reunir num sindicato/associação/partido político/clube de mães/associação de ajuda a alcóolatras, viciados, compulsivos/grupo terrorista ou comer alguma coisa, ou ouvir música ou encher a cara ou encontrar alguém para conversar ou para se envolver emocional e/ou sexualmente ou para amar e até nessa hora lá estará aquela cor pachorrenta, na sua frente, na cara das pessoas, no tom que elas escolheram para encontrar você, no tom dos discursos que foram proferidos, no copo de cerveja/vodka/vinho/cachaça/uísque, nos dois lados do comprimido, nos acordes da canção que aquele cantor de barzinho destila no violão meio desafinado, na gravata borboleta do garçom, na bandeja.

Depois você volta para casa, desesperançado de encontrar ainda algum tipo de outro matiz que não o que inundou todas as suas horas úteis e produtivas, as horas que fizeram de você um cidadão de bem, e aí você liga o rádio ou a tv ou o computador ou o tablete ou o celular. E a cor vai voltar, entrando por todas as telas que você fizer brilhar, invadindo a sua casa ou seu apartamento ou seu quarto de pensão ou sua quitinete ou seu barraco ou a sua caixa embaixo da ponte. E ela não vai te abandonar até que você durma, talvez ainda o persiga pelos seus sonhos ou pesadelos. Talvez ainda volte no outro dia, a depender de como você vai acordar, da sorte que for tirada, naquele dia, por quem determina a sua vida.

Para dias cinza, só há um antídoto: espíritos coloridos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade

Sites relevantes para pesquisa

Publicidade

%d blogueiros gostam disto: