terça-feira, 25 de janeiro de 2022

EVAS REFLETIDAS NOS ESPELHOS DA VIDA

Publicado em 10 de janeiro de 2022, às 15:18
José Neres – Professor e membro da AML, ALL e da Sobrames-MA
Imagem cedida pela autora

Em um tempo nem tão distante assim, talentosas e criativas escritoras como Xaviera Hollander (1943), Cassandra Rios (1932-2002), Adelaide Carraro (1926-1992) e Anaïs Nin (1903-1977), por exemplo, foram recriminadas e até publicamente execradas por utilizarem uma linguagem considerada obscena e por insistirem em escrever sobre temas que incomodavam pessoas teoricamente mais sensíveis aos escritos nos quais a libido da mulher era tratada de modo mais explícito.

Esse caminho foi trilhado também por algumas outras escritoras que viram no universo íntimo feminino um campo a ser explorado e, embora muitas vezes tenham sido mal interpretadas, conseguiram produzir uma obra na qual erotismo, sensualidade e liberdade para explorar as possibilidades do corpo, da alma e das múltiplas formas de vivenciar o amor são evidenciados e transformados em arte. Autoras como Marguerite Duras (1914-1996) e Hilda Hilst (1930-2004) constantemente têm o nome associado a uma literatura que mescla o bom gosto estético e boa dose de elementos picantes em seus textos.

Quase no final do século XX, principalmente após o estrondoso sucesso de escritora inglesa Erika Leonard James, com sua trilogia iniciada com o romance 50 tons de cinza, que foi logo roteirizado e vertido para o cinema, esse gênero, antes tão discriminado, acabou ganhando novos seguidores e chamando a atenção do mercado editorial em todo o mundo. A partir de então, livros que antes ficavam escondidos em uma prateleira estrategicamente reservada no fundo de algumas livrarias começaram a ser expostos na vitrine principal, comprados, lidos e comentados abertamente, para horror de algumas pessoas que consideram que a literatura de cunho erótico escrita por mulheres não tem valor estético suficiente para ser discutida em público. Quanta ignorância!…

Hoje, embora ainda tenhamos que conviver com preconceitos e desconfiança por parte de quem acredita que esse tipo de conteúdo não deveria ser publicado, ninguém, nem os leitores nem as escritoras, precisam esconder-se por trás de uma diáfana capa de moralismo, de pseudônimos ou de qualquer outro subterfúgio para produzir ou apreciar a chamada literatura erótica de autoria feminina.

No Brasil, alguns nomes vêm se destacando, como é o caso de Ariela Pereira (Redenção e desejo), Tamires Vasconcelos (O astro pornô), Tatiana Amaral (A descoberta do Prazer), Camila Moreira (O amor não tem leis) e Rita Queiroz (Confissões de Afrodite), para citar apenas alguns nomes de destaque na literatura nacional contemporânea.

Essa vertente literária também tem expoentes nas letras maranhenses, como, por exemplo, Ahtange Ferreira (Marcas indeléveis, Psicopatia, Teu olhar, Clandestino Amor), Eliane Morais (Comensais, Rol das faces), Dorinha Marinho (As diferentes formas do amor), Mônica Moreira Lima (Sexo para maiores de 18 cm, Pirocadas avulsas) e Sharlene Serra (Espelhos de Eva), entre outras que têm surgido nos campos das letras.

Claro que há inúmeras diferenças entre os estilos dessas escritoras maranhenses. Cada uma trabalha personagens e enredos de forma peculiar e carrega mais ou menos nas cores do erotismo, nas ironias e até mesmo na carga de romantismo que permeia seus contos e romances. Mas o importante é que todas elas estão conquistando um merecido espaço, tiveram coragem de romper com uma bolha e tomaram a decisão de disponibilizar seus trabalhos para uma sociedade que, muitas vezes, mais julga o autor do que lê os frutos do trabalho desses mesmos autores.

Caso especial é o de Sharlene Serra, que é bastante conhecida por seus trabalhos anteriores voltados para o público infanto-juvenil, pensando na inclusão e na denúncia social. Então, com esse histórico, pode ter causado espanto para muitas pessoas a decisão dessa escritora de publicar um livro com temática destoante das demais. Mas isso não tem o menor sentido, pois todo escritor tem o direito de alterar as rotas de sua produção e tentar atingir outros públicos sem que isso signifique abandono de alguma causa ou incoerência. E isso deve ser respeitado.

Em “Espelhos de Eva” (editora Estampa: Imperatriz, 90 páginas), sua mais recente produção, que teve uma edição anterior em 2019 e voltou repaginada, em 2021, com novo projeto gráfico, a escritora transita pelo universo dos contos de fada, mas agora com um olhar voltado para o público adulto e com alguns questionamentos que já apareceram em livros anteriores, mas que são retomados sob outros prismas e em uma linguagem que oscila entre as metáforas e o desejo de transformar o entorno.

O enredo do livro é aparentemente simples: depois de um dia de intenso trabalho, Eva tem uma noite insone e isso a faz pensar na vida, em seus desejos e possibilidades. Misteriosamente, seu espelho quebra e, após recolher os cacos, Eva repassa mentalmente algumas situações corriqueiras e mergulha em um mar de desejos represados. Sem ter o que fazer e por já haver percorridos as redes sociais, Eva se refugia nas páginas de um livro que traz como figura central Bianka Fernandes das Neves, uma jovem que traz em seu passado diversos casos de abusos, preconceitos e perseguições. A leitura desse livro leva Eva a diversas reflexões que são revistas página a página.

Nesse livro, Sharlene Serra aposta na retomada de arquétipos que ressaltam a visão maniqueísta na qual o mundo está dividido em duas partes que se opões e ao mesmo tempo se completam: o bem e o mal. As relações intertextuais são bastante explícitas e se revelam desde o título e perpassam pela metáfora que relaciona o ato de morder o fruto proibido (simbolicamente uma maçã) e logo depois sair da zona de conforto para adentrar em um terreno no qual os pecados imperam e corrompem uma pureza que deveria carecer de proteção.

Muitas são as referências intertextuais que permeiam a obra, desde o mise em abyme, (que lembra as Mil e uma noites e que serve como base estrutural da narrativa), até a identificação das personagens: Bianka das Neves (que remete à Branca de Neve), Dona Angelina (lembrando pureza angelical de uma genitora); Maria Luíza (referência icônica a Lúcifer, mas que também simboliza os arquétipos da bruxa, da madrasta e da rainha má), Eulália (a madrinha que aparece para trazer não apenas um presenta, mas também revelações), Martha (a mulher que está morta em plena vida), Vinícius (o príncipe encantado capaz de qualquer sacrifício para salvar sua amada), o uso do espelho como forma de passagem para a descoberta de novas realidades, como ocorre com a Alice de Lewis Carroll e outras tantas metáforas utilizadas na construção do texto.

Ao longo da narrativa, Eva, ao entrar em contato com as histórias contadas por Bianka, acaba conhecendo fatos que se multiplicam no tempo e no espaço e que refletem nos fragmentos do espelho quebrado algumas situações tão corriqueiras que acabam sendo vistas como normais e comuns, mas que não deveriam acontecer e que são constantemente eclipsadas por outras tantas cargas de sofrimento que rondam a humanidade como um todo. Dessa forma, a autora aproveita o enredo de seu livro não apenas para denunciar casos de pedofilia, abusos sexuais, relações abusivas etc., mas também para explorar as diversas fases da sexualidade da mulher e como isso pode ser visto e (pior) julgado por uma sociedade que nem sempre está disposta a compreender e auxiliar o próximo, mas que encontra tempo para colocar na berlinda quem tenha a ousadia de tentar sair de um padrão estabelecido por quem se julga dono de uma verdade inconteste.

Uma excelente ideia da autora foi mesclar poemas com trechos da narrativa. Um e outro se completam e formam um todo bastante interessante, mas que podem também, em alguns momentos da obra, ganhar ares de independência, sendo, porém, melhor aproveitados em seu conjunto. A preocupação da autora mais com o conteúdo e com o ritmo do que com as formas clássicas e com os jogos rímicos deu maior naturalidade aos trechos e valorizaram o olhar prismático do livro. O diálogo entre as formas é essencial para a tessitura do texto e das malhas que entrelaça ações e pensamentos.

É possível perceber claramente ao longo do texto a intenção de valorizar a figura feminina em sua integridade. Isso se reflete no tom pedagógico que a obra assume em alguns momentos, mas que poderiam ser diluídos dentro da experiência de vida das diversas personagens ou trabalhadas de modo menos condensado, para não assumirem o tom de propaganda ideológica pessoal, mas sim de tomada de atitude das personagens ou da narradora. Isso, porém, não afeta a leitura nem a experiência oportunizada pelo contato do leitor com as diversas facetas femininas que atravessam a obra.

No todo, Espelhos de Eva é um livro de agradável leitura. em suas páginas é possível encontrar um equilíbrio entre erotismo, crítica social, ficção, aspectos da realidade circundante, elementos simbólicos e muitos, muitos questionamentos acerca da forma como a mulher é vista, explorada e até mesmo usada pela sociedade ao longo da história da humanidade, sendo, inclusive, a Rainha uma personagem que explora diversos aspectos contraditórios, pois ela, que apresenta sempre um perfil de força e empoderamento, é questionada em suas ações por personagens que querem cultivar valores, mas que não conseguem visualizar na Rainha uma determinação de saber-se proprietária de seu próprio corpo, de seus desejos e de sua história.

Sharlene Serra, neste seu livro, levanta questionamentos que fazem parte da temática de outros de seus trabalhos voltados para crianças e adolescentes. Aqui podem ser encontradas denúncias contra o abuso de menores, defesa das pessoas com deficiência, preocupação com a educação, reconhecimento do valor das mulheres… Mas agora dialogando um público diferenciado e que já tem discernimento suficiente para não confundir a substância com a forma nem a autora com sua obra.

Uma resposta em “EVAS REFLETIDAS NOS ESPELHOS DA VIDA”

Oportuno texto de crítica literária sobre um tema muito evitado nos círculos acadêmicos, desde Safo de Lesbos, a pioneira do gênero, passando por Florbela Espanca e Clarice Lispector.
O professor José Neres soube, com virtuosismo profissional, abordar o tema, dando uma bela contribuição ao Região Tocantins.

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