terça-feira, 30 de novembro de 2021

A LINGUAGEM NEUTRA: POLÊMICAS E TRANSFORMAÇÕES

Publicado em 5 de novembro de 2021, às 18:33
Linda Barros, Professora e Atriz. Membro da Academia Poética Brasileira
Imagem fornecida pela autora

Quando estamos falando em mudanças e transformações, devemos dizer que nem sempre o mundo não está preparado para recebê-las, muito menos para aceitá-las. Como bem disse Fernando Pessoa “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; (…) tudo quando vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida”. Uma das mudanças nessa contemporaneidade está ligada à estrutura da língua, principalmente à língua portuguesa no Brasil.  É do conhecimento de todos que a língua é uma estrutura maleável e, nesse sentido, há a possibilidade de apresentar variedades linguísticas.

Desde os primórdios, o idioma já existe, no entanto, o que acontece, é a constante mudança ou enriquecimento vocabular, dentro da língua portuguesa/brasileira, nesse caso – essas mudanças, afetam o léxico, a sintaxe e até a semântica. Mas para que essas mudanças sejam aceitas é necessário que tais variações já existam há um longo período dentro da nossa comunidade linguística.

Nesse longo percurso de transformações, de repente nos deparamos com o vocabulário neutro, ou linguagem neutra, ou ainda com a linguagem não binária. Nesse sentido, muito já se ouviu falar de uma pessoa neutra, um sentimento neutro, um território neutro ou de uma palavra neutra. Mas, afinal o que é “ser neutro”?

Neutro vem do latim neuter, neutra, neutrum, que significa “nem uma coisa, nem outra”, em outras palavras, também significa um símbolo de indeterminação. Concomitante a isso, refere-se a algo que não tem partido em qualquer disputa. Segundo os dicionários, neutro é tudo aquilo “que não toma partido, que se abstém de tomar partido” ou ainda, “que avalia ou julga com imparcialidade” e mais “que não apresenta clareza ou definição; indefinido, vago”. Trazendo para a linguística, o professor Cândido Jucá (filho), em seu Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, comenta que se trata de um adjetivo que representa algo “que não é nem um nem outro, imparcial, indiferente, inativo, que não é nem masculino nem feminino”. A linguagem neutra, ou não binária, é um processo em evolução e ainda de pouca aceitação por parte da sociedade moderna.

A linguagem neutra ou não binária é usada por pessoas que não se identificam com os gêneros masculino ou feminino. Hoje, esse tema está recorrente na mídia, nas redes sociais e no vocabulário do dia a dia, usado para dar igualdade àqueles que se sentem excluídos perante a sociedade. No entanto, vale ressaltar que, querendo ou não, é uma mudança drástica no comportamento da norma culta da gramática da língua portuguesa. Alguns chegam a chamar tal mudança de “aberração linguística”, conceito esse que pode ser revisto para que não cause tantos problemas com as pessoas que utilizam essa nova linguagem. Para abraçar a causa, o tradicional Museu de Língua Portuguesa (MLP), que foi reinaugurado recentemente, usou a nova linguagem em uma postagem em suas redes sociais com a expressão “todes” que ainda não consta nos dicionários; justificou dizendo que o MLP é “um espaço para a discussão do idioma e suas variações incorporadas ao longo do tempo”. Segundo informação do jornal Gazeta do Povo, “a medida que teria como objetivo incluir pessoas que se auto declaram não binárias, ou seja, que não se reconhecem nem como mulher nem como homem, é alvo de críticas por parte de linguistas e professores da língua portuguesa”.

No português e outros idiomas provenientes do latim, possui fortes marcadores de gênero, significa dizer que há uma mudança na forma como escrevemos ou falamos algumas palavras do nosso idioma de acordo com o gênero em questão. Tais ocorrências acontecem com os substantivos, adjetivos, artigos e pronomes, como já sabemos, falamos meninas e meninos, bonitas e bonitos, eles e elas, e assim por diante. Em todas essas estruturas, quando queremos falar de forma genérica ou no plural, é o gênero masculino que é considerado o correto para representar o todo, sendo assim, se estamos falando de um grupo composto de meninos e meninas o correto, segundo a gramática normativa da  língua portuguesa, é usar “eles” ou “todos”  quando nos referimos  ao conjunto completo.

Em recente artigo publicado na revista Istoé (30/07/21), a Academia Brasileira de Letras se pronunciou acerca do assunto, dizendo “que a gramática é como um edifício, você mexe na parte externa, que é a pintura, que são as palavras, mas não na estrutura, na parte interna”, palavras do professor, filólogo e gramático Evanildo Bechara.

Sobre essa temática, as opiniões se dividem. Anderson Garcês, universitário do curso de Letras, trata esse assunto “como irrelevante para a língua portuguesa, tendo em vista que é um pequeno grupo de pessoas que faz parte de uma comunidade restrita de falantes e que não há a necessidade de uma mudança drástica dentro da gramática normativa. Nesse sentido, é incoerente, já que não há uma base, um estudo, para estabelecer o gênero neutro, a não ser comportamental”. O professor de artes e produtor teatral Marcos Dominici dá sua contribuição deixando um questionamento “se a língua portuguesa é viva e está em constante mudança (já que recentemente passamos por uma reforma ortográfica) e algumas palavras foram adaptadas a partir dessa mudança da língua viva, assim como aceitar estrangeirismo e tantas outras coisas. Será que o pronome neutro incomoda porque quebra a estrutura da gramática e da ortografia da língua portuguesa ou será que tem uma quantidade de valores, de preconceitos em função de uma série de circunstâncias sociais?”

Para a professora de inglês e mulher trans Naya Evelynn, a maioria dos argumentos “são inválidos, uma vez que muitos têm zero contato com o mundo das letras”, enfatiza ainda que “a linguagem neutra é essencial. Língua não devia ter gênero, ela deveria ser capaz de abranger a todos. É um processo de se acostumar, é um processo de evolução linguística, porque a língua é algo vivo, ela muda constantemente. Nós não falamos de acordo com a gramática no nosso dia a dia, então, é uma justificativa inválida para o não uso da linguagem neutra em outros ambientes”. A professora termina seu depoimento dizendo que “o uso da linguagem neutra é uma necessidade que está surgindo no processo de crescimento como ser humano e gênero e deve ser respeitado mediante de como as pessoas gostariam de ser tratadas”.

A professora e Pós-Doutora em Estudos da Linguagem Renata Barcelos, defende que “a língua é dinâmica, é um dos aspectos dela, é um processo em movimento, as palavras sofrem alterações, sobretudo no aspecto semântico e nesse período em que estamos vivenciando, vem surgindo o fenômeno da linguagem neutra, onde um grupo de pessoas defende a causa de que precisamos ajustá-la para atender as atuais circunstâncias, pensando como elas se identificam, pois algumas não se identificam nem no masculino, nem no feminino”, diz ainda que “cada língua tem seu processo de evolução. O Latim tinha o neutro, o masculino e o feminino e quando houve a evolução desse idioma, em Latim Clássico para o vulgar e houve essa transposição do vulgar para as línguas neolatinas, (francês, espanhol, italiano), na língua portuguesa, nós só ficamos com o feminino e masculino”. Ela termina dizendo que “a partir de muitas pesquisas,  de muitas leituras de textos acadêmicos, de vários recortes,  eu continuo defendendo que a língua é um processo em movimento, que na linguagem cada vez surgem mais novas palavras, principalmente também por causa da tecnologia, mas independente das opções, das  orientações, do que eu me identifico enquanto homem e mulher,das minhas escolhas,  a língua portuguesa apresenta dois gêneros: masculino e feminino”.

Toda a polêmica está, onde se propõe que o “a” e “o” sejam substituídos nos pronomes, substantivos e adjetivos neutros por “x” ou “@”, assim permite que “ele” ou “ela” possa haver um pronome pessoal “elx” ou “el@”.  A referência à linguagem neutra (chamada também de linguagem não binária) atende à demanda de ativistas pela neutralização da língua. Defensores dessa mudança pedem o fim do binarismo do idioma português, ou a existência de somente dois gêneros: feminino e masculino. Para isso, propõem a criação de novas palavras, como “todes”, “menine”, “elu” e “elx”. A linguagem neutra ou não binária, mesmo tendo o mesmo propósito de incluir a todas as pessoas, de certa forma altera o idioma, como podemos ver nas palavras, amigxs, tod@s, todes.  Os grupos feministas e LGBTQIA+, que são ainda minoria, abraçam essa causa como uma forma de denunciar desigualdades.

Entenda como fica a linguagem neutra:

Fonte:https://www.google.com.br/search?q=quadro+explicativo+da+linguagem+neutra&sxsrf

E alguns exemplos:

Fonte: https://www.google.com.br/search?q=quadro+explicativo+da+linguagem+neutra&sxsrf

Depois de todas as argumentações e opiniões, um fator ou ponto em comum a tantas discussões e divergências é que todos concordam que a língua é dinâmica, é viva, é pulsante e aberta a constantes transformações, principalmente no que se refere ao vocabulário. Por fim, para um melhor entendimento a toda essa polêmica, abaixo tem um texto (anônimo), mas de suma relevância encontrado no link https://www.politize.com.br/linguagem-inclusiva-e-linguagem-neutra-entenda

A FARSA DA INCLUSÃO COM PRONOMES NEUTROS

(Não sei quem é o autor, mas vale a pena a leitura)

Outro dia sentei em um restaurante com um amigo e a garçonete veio nos atender com um sorriso:

– “Olá Amigues!”

– “Amigues?”, eu disse, também com um sorriso.

– “Isso mesmo, somos um restaurante inclusivo!”, ela respondeu com orgulho.

– “Olha que bom! Isso é ótimo porque em pouco tempo chegará um amigo que é cego. Você tem o cardápio em Braille?”

– “Não, não temos isso.”

– “Ok, mas minha esposa também vem com minha afilhada que é autista. Menu com pictogramas otimizado para pessoas autistas, vocês têm?”

– “Não, desculpe…”, ela disse visivelmente nervosa.

– “Não tem problema, isso geralmente acontece. Imagino que libras para clientes surdos você deve saber certo?”

– “A verdade é que você está me encurralando”, responde sorrindo de nervoso.

Ela não estava mais confortável…

Então eu disse:

“- Lamento dizer que vocês não são um lugar inclusivo, vocês só querem estar na moda. Quer ser inclusivo, inclua aqueles que o sistema não dá oportunidade. Um É, X, ou @ no final não faz de você inclusivo. Atentar contra a língua portuguesa não lhe torna inclusivo, lhe torna burro.

                Por fim, querendo ou não, gostando ou não, assim como as gírias, os sotaques e tantas outras palavras que surgem todos os dias, a linguagem neutra chegou com muita força e muitos se darão conta de que ela é uma nova forma de expressão e que mesmo não estando regulamentada na gramática de língua portuguesa, chegou para ficar, sem pedir licença.

 Mas e você caro leitor, o que pensa sobre o assunto? É contra ou a favor? Aproveite, a discussão está aberta, deixe seu comentário.

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