terça-feira, 26 de outubro de 2021

SE PRECISAR, DESISTA. E TÁ TUDO BEM

Publicado em 11 de outubro de 2021, às 9:20
Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor
Imagem: Unsplash

Levanta a mão quem não foi ensinado que, na vida, você “tem que lutar e nunca desistir”. Está no célebre poema de Gonçalves Dias, “a vida é combate/que os fracos abate…”. Desistir, na nossa sociedade falsamente meritocrática, fazedora de vencedores, de titãs, alimentadora de mitos, é um grande sinal de fracasso. Talvez o maior deles.

Mas o que nos ensinaram é um erro, um engodo, uma falácia, um simulacro, uma fake news. Não é preciso que lutemos sempre, muito menos que vençamos todas as lutas. A luta, muitas vezes insana, para ganhar todas as guerras, antes de nos fazer crescer, de nos tornar vitoriosos, nos adoece.

Por isso, cada vez mais, é preciso também aprender a desistir.

Desistir é, em muitos casos, uma atitude de inteligência, de sagacidade, de sobrevivência. Até de coragem. Não é isso que te ensinam na escola; não é isso que te ensinam na igreja (no célebre verso do Eclesiastes, “há tempo para tudo embaixo do céu” não se encaixa o “tempo de desistir”…); muito menos nos treinamentos de coach internet afora.

Mas, sim, se precisar, desista. Desista se você percebe que aquela relação é tóxica. Desista se você está num emprego que, mais que um “trabalho”, parece um “trapalho”. Desista daquele parente que só sabe criticar, diminuir, trazer azedume para as reuniões de família – ou que importuna com opiniões ofensivas e preconceituosas. Desista de querer ter uma vida de sucesso até os 30 anos, se a sua vida foi difícil e você não teve os mesmos incentivos  e oportunidades do seu vizinho de rua que foi criado no leite e no Danoninho. Desista daquela religião que te oprime, que tudo o que faz é te apontar o dedo em riste. Desista daquela turma que só te leva pro buraco. Desista daquela faculdade que mais parece um peso acadêmico do que uma oportunidade para aprender uma coisa boa que fará a diferença na vida das pessoas, com o canudo que ela vai dar. Desista daqueles grupos de WhatsApp que serpenteiam correntes de opiniões com as quais você não concorda e não dão o direito do contraditório – a não ser, um contraditório cheio de agressividade e incompreensão. Desista de amigos e amigas que só querem usar você – de escada, de multidão para selfies, de consultório sentimental, de caixa. Desista de tudo aquilo que, enfim, prejudica a tua vida a ponto de te adoecer.

Que fique bem claro. Desistir não é largar tudo e se enclausurar. Afinal, você não é o Tom Hanks em “Náufrago”. Desistir é deixar de dar importância. É não insistir mais tempo naquela barca furada. É mudar de emprego, procurando outro. É trocar de curso, sempre buscando uma formação que mais faça sentido e te encaminhe para uma vida feliz. É deixar de dar importância àquela pessoa que não deve ter importância. É pensar, antes de qualquer coisa, em você.

Eu já desisti muitas vezes. E em todas as vezes percebi, no curto, médio ou longo prazo, que foi a decisão certa. E já deixei de desistir um montão de outras vezes – e me arrependi, podia ter feito uma escolha melhor se tivesse desistido naquela hora…

Desistir não te faz um fracassado. Tentar ser forte o tempo todo, tentar vencer sempre, por cima de pau e pedra, tentar matar um leão por dia e ainda querer ser o novo rei na floresta, isso sim te adoece.

Uma vez eu li esta frase, atribuída a Chaplin: “Não sois máquina, homem é que sois”. Desistir tem muito a ver com isso.

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