terça-feira, 26 de outubro de 2021

JOSÉ SARNEY: 90 ANOS DE “UM POLÍTICO E UM ESCRITOR”

Publicado em 6 de setembro de 2021, às 16:19
Linda Barros, Professora e Atriz. Membro da Academia Poética Brasileira
Imagem: Lindalva Barros

A vida é um caminho de mão dupla e cheio de curvas, com vários desvios, mas, em um momento ou outro, o destino se choca em uma dessas curvas e as surpresas se encontram, dialogam e seguem seu rumo, cada uma com um destino definido pelo tempo. Em mãos, temos um dos trabalhos mais importantes dos últimos tempos, uma obra que, com certeza, servirá para inocular nas novas gerações o desejo de conhecer o cenário político, cultural e literário brasileiro da segunda metade do século XX até os dias atuais.

JOSÉ SARNEY – O HOMEM E A PALAVRA, é uma coletânea de artigos a título de comemoração aos 90 anos desse brasileiro e maranhense que teve sua trajetória traçada pelas linhas do tempo, com um destino que não podia ser outro: uma carreira política e intelectual das mais importantes do país. A obra conta com 64 artigos de diferentes personalidades, entre elas políticos, escritores, artistas, jornalistas e outros intelectuais, todos admiradores da vida de José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, advogado, político e escritor que entrou para a história com o nome de José Sarney. Entre esses autores estão Ferreira Gullar, Josué Montello, Luiz Inácio Lula da Silva, Jorge Amado, Carlos Nejar, Rossini Correa, Benedito Buzar, Kátia Bogéa, Regina Echeverria, Raquel de Queiroz e tantos outros de grande valor intelectual.

E seguindo o curso da vida, devemos dizer que José Sarney, dono de um legado incontestável, com certeza já desviou de várias daquelas curvas até chegar a seu destino: uma carreira com uma longa jornada política e literária. Como bem mencionou o poeta Nauro Machado, em seu artigo “Estrada de mão dupla”, sobre a trajetória desse ilustre homem das letras e da política, “Sarney nunca dissociou o fazer do ser. Que sua vida é o caminho de um sonho aberto pelas ferramentas – picareta e pena – de um trabalho poético. Ainda segundo Nauro, Sarney é “um capítulo significativo da nossa história e que a própria história é testemunha ocular de tudo isso”. Comemorando já seus quase 92 anos, qualquer que seja a avaliação feita à cerca de sua carreira, a história está aí para comprovar os fatos, todas as suas conquistas.

José Sarney não é só o homem político, mas é um dos grandes nomes da literatura maranhense e brasileira. É também um dos maiores representantes do realismo mágico, gênero instigante dentro do contexto literário. Tal faceta se destaca em Saraminda, obra extraordinária, onde o leitor se sente envolvido pelos encantos dessa personagem mítica, que mescla o real e o sobrenatural. A jornalista e escritora Radulescu, em seu artigo “José Sarney – o realismo mágico”, descreve o estilo narrativo de Sarney como “sedutor e estranho, associando o diálogo e o monólogo, voltando depois à narração impessoal para introduzir personagens novos ou para descrever, em imagens poéticas, a natureza selvagem das explorações de ouro das margens do rio Calçoene”. Licenciado em Ciências Jurídicas e Sociais, José Sarney além do político que todos já conhecem, destacou-se muito cedo como escritor. Poeta, contista e cronista, sua vida é uma verdadeira enciclopédia.

Nas palavras de Antônio Carlos de Lima, Sarney é o “sábio da aldeia”, segundo ele, o autor de Norte das Águas, é “aquela figura que, em função da idade e da experiência, torna-se o guardião e o transmissor dos elementos cumulativos da cultura”. Diz mais, que Sarney é “o guia da tribo de sua nação em momentos decisivos”. A carreira literária de José Sarney começou em 1952, com a obra A Canção Inicial, livro de poemas, mais tarde, em 69 lançou Norte das Águas, em 78 lança Os Marimbondos de Fogo, Brejal dos Guajas e outras histórias, chegou em 1985. O aclamado O Dono do mar, que foi publicado em 1995, teve enorme sucesso no Salão do Livro de Paris e também foi traduzido para o romeno, pela Fundação Cultural Romena em 1997. Saraminda (2000), Saudades Mortas (2002) e A Duquesa vale uma Missa (2007) completam o rol de obras literárias publicadas até o presente momento por José Sarney.

Paradoxalmente, o ser humano às vezes, tem uma condição social que o condena, ou que o venera. No alto de seus 91 anos, José Sarney é um homem que tem sua história de vida contada por todos e por ninguém ao mesmo tempo, e é visceral dentro da própria existência humana. Ivan Sarney em seu artigo/homenagem “Em um certo lugar do passado”, conta que Sarney “com seus olhos de ontem, ele pode olhar agora, a trajetória que construiu, ao longo de seus noventa anos, com a certeza daquilo que plantou de luminoso, no coração de tantas pessoas”. E assim, a vida tem seus paradoxos, onde a uma verdade às vezes essencial e deve ser dita e mostrada.

Finalizando este passeio pelas honrosas palavras de tantos intelectuais a cerca dos noventa anos desse ilustre homem, não podia deixar de mencionar também as breves palavras de um outro grande homem das letras, o escritor, jornalista, ex-deputado e membro da Academia Maranhense de Letras Benedito Buzar, que, em seu artigo intitulado “Um grande brasileiro”, conta que a trajetória do ilustre maranhense e também membro da Academia Brasileira de Letras, que no alto dos seus 90 anos “constitui de pronto, uma efeméride, seja do ponto de vista biológico, seja social”. Dizendo ainda que “ao longo desse tempo, ele jamais se conteve em ver a vida passar, com natural alternância de bons e maus momentos”.

Independente de sua existência ao longo da vida, o ser humano percorre sua trajetória com afinco e a convicção de onde deseja chegar. Às vezes esse caminho é árduo, mas pode render bons momentos e boas histórias, como essas dessa Coletânea, que ficará guardadas para sempre na memória das futuras gerações de leitores.

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