terça-feira, 26 de abril de 2022

DOIS TRABALHOS ESSENCIAIS SOBRE AS LETRAS DO MARANHÃO

Publicado em 4 de maio de 2021, às 6:58
José Neres – Professor. Membro da AML e da Sobrames
Imagem: Unsplash

  Desafiando as questões econômicas, o escasso tempo e em muitos casos até mesmo a lógica, as pessoas que vivem no mundo acadêmico acabam mergulhadas em um misto de prazer e obrigação ao produzirem seus trabalhos, sejam eles em forma de livros, artigos, resenhas, anotações, descobertas, redescobertas, inovações ou divulgação científica. Contudo, esses trabalhos, que de alguma forma acabam sendo incorporados à vida cotidiana das pessoas, nem sempre são devidamente reconhecidos e muitas vezes acabam se perdendo em um oceano de anonimatos, sendo o nome de seus autores ignorado até mesmo entre seus pares.

Nesse ponto o mundo das letras não difere muito das outras áreas do conhecimento, talvez somando-se aos tantos obstáculos que aparecem na vida dos pesquisadores a falta de patrocínio, a pouca divulgação de resultados de anos de trabalho fora dos eixos convencionais de divulgação e um estranho silêncio que costuma abafar as raras palmas recebidas em alguns momentos isolados.

Uma pesquisa, por mais simples que possa parecer a quem esteja fora das diversas etapas que vão da problematização ao produto final, demanda tempo, esforço, paciência, inúmeras leituras, apontamentos, idas e vindas ao objeto de estudo e às fontes teóricas. São tantos os esforços e as energias dispendidas no decorrer de uma pesquisa que os resultados, mesmo os preliminares e, às vezes, não tão corretos assim, mas que não colocassem em risco as questões éticas, bioéticas, a saúde e a segurança dos indivíduos, deveriam ser recebidos com aplausos.

E quando os resultados são espetaculares e até mesmo o simples manuseio do produto final já desperta admiração? Os aplausos deveriam ser redobrados. Esse é o caso de dois livros recentemente publicados por Carlos Augusto de Melo, um professor graduado em Letras pela Unesp, mestre e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, pós-doutor pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e autor de diversos artigos científicos sobre variadas temáticas pertinentes ao mundo literário.

Mas o que tem a ver esse professor com as letras maranhenses. Muito. Ele é o responsável pela publicação de dois importantes livros que há muitas décadas estavam indisponíveis no mercado editorial, que se constituíam verdadeira raridades bibliográficas e que, embora não sejam conhecidos pelo público em geral, são de vital importância para quem dialoga com a literatura em seus diversos matizes.

Foi esse jovem professor e pesquisador atualmente radicado em Uberlândia (MG), que faz parte do corpo docente do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia e de outros programas de pós-graduação em Letras, que em 2018 trouxe de volta aos amantes da literatura oitocentista o “Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira – Autores Portugueses” (Paco Editorial, 2018, 776 páginas), do professor, poeta e filólogo maranhense Francisco Sotero dos Reis( 1800-1871), um dos mais ilustres nomes da educação brasileira do século XIX.

Com extremo rigor técnico, percepção literária apurada e cuidado para com os textos originais, o professor Carlos Augusto de Melo selecionou os trechos nos quais o antigo mestre do Liceu Maranhense se debruçou, de modo didático e crítico, sobre a produção literária dos autores portugueses, desde os primórdios da solidificação da Língua Portuguesa até seus contemporâneos ainda vivo. Com bastante acuidade e atenção a detalhes que poderiam passar despercebidos a olhos leigos, Carlo Augusto de Melo fez um “recorte” das muitas lições proferidas/escritas por Sotero nos cinco volumes de seu alentado “Curso…”, que vieram à luz inicialmente entre os anos de 1866 e 1873.

Mas não se trata apenas de uma atualização ortográfica desse importante trabalho sobre a historiografia literária de língua Portuguesa, o que já seria um trabalho hercúleo e que também foi feito com muita competência pelo professor Roberto Acízelo de Souza, em 2014, mas sim também da seleção de pontos específicos da obra, que foi enriquecida e clarificada em diversos pontos com notas explicativas extremamente necessárias para situar a obra no mundo contemporâneo.

Além desse trabalho sobre o hoje quase esquecido Sotero dos Reis, Carlos Augusto de Melo também reeditou o livro “A Casca da Caneleira” (Paco Editorial, 2019, 168 páginas) e a ele adicionou notas e um aprofundado estudo crítico. O romance “A Casca da Caneleira” foi publicado inicialmente em forma de folhetim entre fevereiro e abril de 1866 e teve em sua composição a colaboração de importantes nomes das letras maranhenses do século XIX, a saber, Gentil Homem de Almeida Braga, Joaquim Serra, Raimundo Filgueiras, Marques Rodrigues, Trajano Galvão, Sotero dos Reis, Antônio Henriques Leal, Dias Carneiro, Sabbas da Costa, Caetanos C. Cantanhede e Sousândrade.

Em 1980, o intelectual maranhense Jomar Moraes havia feito uma segunda edição do livro, com notas explicativas e uma breve contextualização sobre o modus operandi da elaboração do romance. De certa forma, sem invalidar o trabalho inicial de Jomar Moraes, Carlos Augusto de Melo aprofundou as notas e as informações fornecidas pelo pesquisador maranhense, jogando novas luzes sobre alguns pontos que ainda permaneciam obscuros e, ao mesmo tempo, alerta e convida os leitores e estudioso para novos trabalhos sobre um livro ainda pouco explorado em atividades acadêmicas.

Sem dúvida alguma, essas pesquisas do professor doutor Carlos Augusto de Melo é digna de aplausos e certamente terão ressonância em muitos outros estudos que derivarão desses trabalhos sobre escritores e obras de projeção nacional, mas que, às vezes, por motivos vários, não eram conhecidos e/ou divulgados nem mesmo na própria terra natal.

Parabéns a esse intelectual que dedicou parte de seus esforços para ajudar a resgatar um pouco de nossa história literária.

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