terça-feira, 26 de outubro de 2021

Todos em uma vala comum

Publicado em 15 de março de 2021, às 16:19
José Neres – Professor. Membro da AML e da Sobrames
Imagem: Autor

Tecnicamente, romance é uma narrativa longa, com muitas personagens, tempo e espaço amplos e na qual praticamente todas as ações acabam de alguma forma entrelaçadas, conduzindo o texto para confluência de um núcleo temático que se desenrola ao longo de toda a narrativa.

Contudo, estudar e conhecer as técnicas e detalhes da confecção de uma obra romanesca nem sempre é o suficiente para alguém iniciar, desenvolver e concluir um texto que mereça ser classificado como romance. É necessário bem mais. É preciso que o autor tenha uma boa dose de criatividade, saiba conduzir o enredo de modo a não deixar que incoerências e contradições internas prejudiquem o entendimento da história e de suas bifurcações. Porém, o mais importante na arte de romancear fatos, vidas, pensamentos e momentos é o compromisso com o trabalho mental e braçal de transformar ideias em palavras, parágrafos, falas, capítulos…

Um romance não é elaborado e escrito da noite para o dia. Ele exige pesquisa, dedicação e sacrifícios constantes por parte do escritor. Como as possibilidades de equívocos são grandes, o romance exige leituras e releituras, até que todas as arestas sejam devidamente equacionadas para que o texto faça sentido e se desenvolva sem atropelos causados pela imperícia do autor.

O romancista pode ainda se deparar com personagens rebeldes que teimam em ter vida própria e desafiam os esquemas propostos pelo autor. Alguns desses seres de papel escolhem a própria forma de agir e não são raros os casos em que o criador acabe ficando refém da própria criatura. O preço do resgate quase sempre é alto demais para o próprio escritor.

Talvez seja por essas e por tantas outras razões que muitos escritores postergam ad infinitum o desejo de escrever um romance. Não é tão comum um escritor começar sua carreira investindo nessa forma literária que exige tanto esforço e dedicação. No entanto foi isso o que Rickley Marques, autor deste livro, fez.

Ele dedicou seu tempo, seu talento e sua disposição para dar vida às personagens que habitam em seu livro de estreia. O resultado é o romance Vala Comum, que agora temos em mãos.

Sem investir em tentativas de enredos mirabolantes, em inovações técnicas, vocabulares e/ou temáticas, Rickley Marques optou em colocar como epicentro de seu romance algo que jamais deveria ser esquecido ou deixado de lado por qualquer artista: a essência humana. Suas personagens são seres que podem caminhar ao nosso lado em parques, praças, ruas e avenidas. São pessoas que não estão preocupadas em obter superpoderes ou em encontrar fórmulas mágicas que salvem a humanidade de um cataclisma ou de uma pandemia. O que as personagens deste livro querem é um motivo para serem felizes e poderem conviver com os próprios dilemas, que, em muitos casos, são idênticos aos conflitos internos e externos vividos e/ou vivenciados pelos leitores.

Ao longo das páginas do livro, as personagens vão mostrando como alguns problemas de aparente simples resolução podem ganhar contornos de tragédia ou de comédia, de acordo com a forma como são enfrentados ou deixados para solução futura.

Ao lado dos dramas humanos, o romancista também traça um painel político-cultural dos anos 90 do século XX, com suas músicas, seus escândalos políticos e crises inerentes ao período. O livro pode, inclusive, servir como ponto de partida para quem não viveu aquela época, mas tenha curiosidade sobre os acontecimentos daquele momento histórico. Outra sugestão é ler o romance ouvindo a trilha sonora sugerida nas entrelinhas e que acaba se imiscuindo nas tramas da narrativa. Trata-se de uma boa oportunidade de não apenas se apropriar positivamente dos aspectos culturais da época delimitada, como também um meio de se aproximar dos dramas vividos pelas personagens da obra.

No prólogo de seu romance Demian, Hermann Hesse adverte que “os romancistas, quando escrevem suas obras, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima”. Mas no caso deste livro que agora lemos, isso mais aproxima do que afasta o leitor das páginas e da vida das personagens. Imbuído do poder de um deus, porém consciente de seus limites, o autor sabe que não é o único dono da verdade e da história e que suas personagens estão ávidas de serem vistas sob novos olhares.

Embora essencialmente ficcionais, as personagens criadas por Rickley Marques são extremamente humanizadas e fazem com que o leitor acabe se tornando cúmplice de todas a suas escolhas e ações que conduzem todos para a Vala Comum de uma história que se repete ao longo dos tempos.

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