terça-feira, 26 de outubro de 2021

A desconfortável (e emocionante) arte de escrever

Publicado em 12 de setembro de 2020, às 17:30
Imagem: site Ruberval Machado

João Marcos – estudante de Comunicação Social – Jornalismo e escritor

As famosas aulas de literatura no ensino médio sempre traziam nos livros didáticos trechos de obras que foram consideradas célebres no seu tempo ou até mesmo romperam isso e atravessaram os séculos, chegando às nossas prateleiras até que com certa facilidade. Afinal, livros brutalmente difundidos, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, são encontrados em todas as bancas de revistas, por menor que elas sejam. Mas por trás de todo sucesso existe o autor e uma vida que por muitas das vezes não foi fácil.

Particularmente gosto de clássicos por pensar em como o escritor se posicionou em sua época diante do seu livro. O que ele viveu para que chegasse ao fim de sua obra? Como foi o seu processo criativo? Existiram dificuldades aterradoras? Se pesquisarmos um pouco mais a fundo, vamos descobrir que boa parte dos grandes escritores por vezes não teve uma vida boa diante do sucesso, como o caso do escritor Jack Kerouac, que morreu de cirrose depois de a fama o sufocar ou Jerome D. Salinger, que simplesmente “sumiu do mapa” depois do grande sucesso de sua obra. Ambos tinham processos únicos de viver e de escrever, mas que de certa forma isso os afetou, assim como tantos outros, como Charles Dickens, J.K. Rowling, José de Alencar ou Clarice Lispector.

A única resposta que encontro para isso é que escrever é uma arte, um tanto que dolorosa, desconfortável, mas viciante e encantadora. Nenhum dos escritores citados parou de escrever depois diante das dificuldades psicológicas ou financeiras. Eles continuaram. Estar diante do papel em branco é terrível. As histórias todos os dias saltam na sua mente. Diversas pessoas, vozes e personagens gritam por um espaço e escrever é a única forma de organizar essa confusão.

Gabriel Pardal, autor do livro “A Desobediência do Escritor”, expressou esse sentimento de forma tão pessoal e exata, que me impactou. Ele diz que escrever é tortuoso, que cerca de 90% é ler, conversar, observar, mas que no fim é lidar com a solidão, com a procrastinação. E acrescento que é lidar com as próprias emoções, os medos e até mesmo com as alegrias. Contraditório? Sim. Escrever é dolorosamente contraditório e prazeroso.

Talvez a maior realização de um escritor é segurarem seu livro, conto ou poesia nas mãos, seja diante do computador ou impresso, e ver que aquilo realmente existe. É uma sensação tão pura quanto a de dar à luz um filho. No trabalho de parto, a mulher grita e chora, mas sente um alívio inexplicável quando recebe seu bebê nos braços.

Então, se você escreve ou um dia escreveu, já lutou dias e noites contra a dor, a preguiça e a insatisfação. Encare tudo isso com paciência, pois o resultado dessa caminhada é simplesmente empolgante. E completo: a sensação de um vazio existencial que você sente quando seu trabalho está pronto é algo também muito natural e passa bem rápido, pois no outro dia você já vai estar cogitando em como irá se aventurar novamente em outro trabalho de parto, um mais emocionante que o outro.

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